Por que a fibra é insubstituível
É fundamental ter em mente que o cavalo é um animal herbívoro, que se alimenta especialmente de vegetais, normalmente chamados de volumosos, ou simplesmente "verde". Para preservar o equilíbrio psicológico e neurovegetativo do cavalo, é importante manter uma quantidade mínima de 1% do peso vivo do animal, ou 5 kg de matéria seca por dia para um animal de 500 kg em manutenção — o equivalente a aproximadamente 5,5 a 6 kg de feno ou 16 a 18 kg de capim fresco. Animais em atividade, crescimento, reprodução ou trabalho têm necessidade ainda maior.
A ocupação alimentar é, para o cavalo, um fator de tranquilização. Por isso as fibras, que aumentam a duração da ingestão e da digestão, são tão importantes para a sua integridade.
As fezes como indicador de fibra
A consistência das fezes do cavalo, principal indicador da saúde digestiva do animal, está diretamente ligada ao teor de fibra na alimentação.
Capins muito novos, recém-rebrotados ou plantados, normalmente provocam quadros de diarreias leves pelos baixos teores de fibra. O mesmo ocorre com alimentação muito rica em concentrado — rações, milho, trigo, acima de 50% da dieta total —, quando as fezes ficam pastosas, semelhantes às de vaca, indicando baixo aproveitamento dos alimentos. Por outro lado, volumosos muito secos também podem causar desconforto digestivo, por aceleração exagerada do peristaltismo devido ao elevadíssimo teor de fibras indigestíveis.
Uma boa consistência de fezes, nem pastosas nem ressecadas, indica que o alimento ficou tempo suficiente no aparelho digestivo para ter seus nutrientes aproveitados ao máximo.
O problema do outono e do inverno
O fornecimento de volumosos é exatamente um dos grandes problemas quando chega o outono/inverno: a oferta diminui consideravelmente em quantidade e qualidade. Isso decorre de temperatura, índice pluviométrico e comprimento do dia, que afetam o desenvolvimento das gramíneas e de algumas leguminosas de ciclo primavera-verão. Uma alternativa é utilizar nessa época plantas cujo ciclo ocorra no outono/inverno, como aveia forrageira e azevém.
Mas essa alternância entre cultivares sazonais nem sempre é possível, até porque nem sempre há áreas disponíveis para soltar os cavalos, quanto mais para deixá-los pastar e manter área de capineira de reserva.
Cuidado com a "capineira de reserva"
Muitos criatórios e centros hípicos reservam uma área de capim elefante para ser cortada apenas no inverno, sem preocupação alguma com as características que devem ser preservadas. Quando chega o outono/inverno, cortam uma capineira mais parecida com bambu do que com alimento para cavalos — chegando a mais de 3 ou 4 metros de altura, com baixíssimo valor nutritivo e altíssimo risco de cólica pelo excesso de lignina.
O capim elefante pode perfeitamente ser utilizado, desde que tomados os devidos cuidados.
- Tratar como cultura, com adubação correta.
- Plantar visando um objetivo específico: alimentar cavalo.
- Cortar no ponto certo, entre 1,50 m e 2,30 m de altura.
- Cortar na hora em que for administrar ao animal.
- Ofertar preferencialmente integral, ou no máximo picado (10-15 cm), nunca triturado.
- Disponibilizar várias vezes ao dia.
- Deixar sal mineral específico à vontade, para equilibrar a relação cálcio/fósforo, normalmente desequilibrada em diversas gramíneas.
Quanto feno estocar: o cálculo
A melhor forma de se precaver contra a escassez e os preços elevados do feno no outono/inverno é abastecer-se na época de oferta alta, na primavera/verão, quando os estoques dos produtores estão cheios e os preços são melhores. Além disso, a qualidade nutritiva é muito superior nessa época: o crescimento é mais uniforme, com fibras mais tenras, palatáveis e de melhor digestibilidade, o que eleva o aproveitamento dos nutrientes e reduz a complementação com rações e suplementos — economia em duas frentes.
Para calcular, é preciso saber o peso do animal e a atividade (crescimento, reprodução ou trabalho, e suas fases). Exemplo: um cavalo de 400 kg em trabalho médio necessita entre 8,0 e 9,6 kg de matéria seca por dia. O volumoso mínimo é 4,0 a 4,8 kg de matéria seca (50% da necessidade). Como o feno tem em média 15% de umidade, isso representa 4,7 a 5,7 kg de feno in natura. Para armazenar por 5 meses (150 dias), deve-se estocar de 700 a 850 kg de feno, ou 58 a 71 fardos de 12 kg, por cavalo.
O restante das necessidades deve ser complementado com ração de qualidade ou mais feno. A relação volumoso/concentrado varia conforme a qualidade de cada um: quanto melhor a qualidade de um, menor será a quantidade do outro. Lembre-se apenas de que a complementação não deve ultrapassar 50% das necessidades em matéria seca, senão o risco de cólica aumenta consideravelmente.
Como armazenar sem perder o alimento
O feno deve ser armazenado em local seco, ventilado, sem contato direto com sol ou chuva, preferencialmente sobre estrados, longe do chão. Cuidado para não armazenar em galpão muito quente, nem encher o galpão até o teto deixando o feno em contato com a telha: o aquecimento exagerado de um produto de baixa umidade pode provocar, em situações extremas, incêndios por combustão espontânea.
Alfafa e o excesso de proteína
O feno pode ser de gramínea, como tifton ou coast-cross, ou de leguminosa, como a alfafa. A alfafa é rica em proteína, e elevados teores de proteína na dieta do cavalo trazem consequências nefastas. Além disso, o desequilíbrio na relação cálcio/fósforo, pela riqueza da alfafa em cálcio, pode levar a desordens esqueléticas — aumento da densidade óssea, ossos rígidos e quebradiços —, predispõe a doenças ortopédicas desenvolvimentares e compromete a absorção de zinco e manganês. Por isso, a alfafa, como qualquer alimento rico em proteína, deve ser utilizada com critério.
- Enterotoxemia, com produção de toxinas no intestino.
- Problemas hepáticos e renais, com urina abundante.
- Emagrecimento do animal.
- Má recuperação após o esforço, mais observável em cavalos de esporte.
- Problemas de fertilidade em garanhões, com queda na espermatogênese.
- Transpiração excessiva, com suor espumante e perda de eletrólitos.
- Cólicas e timpanismo.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
