Resposta direta: posso, sim; devo, não
Em tempos de seca intensa esse tema volta à tona, indo da defesa ferrenha à condenação total do seu uso. A resposta direta é: posso? Sim. Devo? Não.
O "quando posso" é mais fácil. Se a questão é a saúde do cavalo a médio e longo prazo, somente se pode utilizar por um período curto e pré-definido, quando não haja disponibilidade de outros tipos de alimentos volumosos. Se a opção for morrer de fome ou comer silagem, claro que a segunda é melhor.
Muitos se levantam em defesa desse alimento alegando que o utilizam há anos sem consequências visíveis e que os animais estão gordos e bonitos — como se animal gordo fosse sinônimo de animal saudável. Outros se baseiam em pesquisas científicas reais e corretas nas condições propostas, que observaram boa tolerância e boa absorção de nutrientes. Porém, a imensa maioria dessas pesquisas foi realizada por curto espaço de tempo, muitas entre 15 e 30 dias de consumo. Por períodos curtos, de fato não encontramos problemas graves.
Como a silagem é produzida — e onde começa o risco
A ensilagem é um processo de preservação do volumoso em ausência de oxigênio, ou seja, em anaerobiose. A técnica exige que o milho — ou outro alimento compatível, como sorgo, cana-de-açúcar ou capim elefante — seja cortado no ponto certo (no caso do milho, quando o grão está em ponto de pamonha), picado e levado ao silo, onde será prensado para eliminar todo o oxigênio e coberto com lona, sofrendo fermentação anaeróbica com produção de ácidos lático e acético que reduzem o pH para 3,8 a 5,0. Quando o processo não é bem feito, pode haver ação de Clostridium, comprometendo a qualidade e a aceitação.
Características de uma boa silagem são temperatura baixa, cheiro agridoce característico e agradável e coloração uniforme. Cheiro forte, temperatura elevada e desuniformidade na aparência são fortes indicativos de produto comprometido — proibitivo na alimentação animal, especialmente de equinos.
A janela de duas horas
A partir do momento em que o silo é aberto, há incidência de oxigênio sobre o produto, iniciando a fermentação aeróbica que, grosseiramente, pode ser chamada de putrefação. Isso demora algumas horas, mas para o equino, em razão das particularidades do seu aparelho digestório, entre abrir o silo e o animal ingerir totalmente a silagem não deve passar de duas horas. Ou seja: para tratar equinos com silagem de forma otimizada, ela deve ser fornecida 4 ou 5 vezes ao dia.
Em animais embaiados os cuidados devem ser redobrados, pois, pela ociosidade da baia, se o produto estragar o animal pode ingerir mesmo assim. O que sobra deve ser descartado fora da baia a cada duas horas.
O cavalo não vomita nem arrota e, diferente dos ruminantes, tem sua câmara de fermentação na porção final do aparelho digestório — o que o torna mais sensível a processos fermentativos nas porções anteriores. Por isso, adquirir silagem de terceiros ensacada, já em contato com o ar, é colocar os animais sob risco. Se o filme plástico rasgar, entra oxigênio e a degradação acelera. E manter silagem na carreta ou carriola para administrar mais tarde, prática comum com gado, é proibitivo no caso de equinos.
A matemática do desequilíbrio nutricional
Do ponto de vista nutricional, a silagem tende a ser deficitária em alguns nutrientes e excessiva em outros. Em ambos os casos, não favorece a saúde do cavalo. Para equilibrar, é obrigatório utilizar rações de ótima qualidade e, eventualmente, suplementos — o que encarece o custo diário. Uma silagem de milho, segundo o CQBAL da Universidade Federal de Viçosa, possui 31,1% de matéria seca, 7,24% de proteína bruta e 2,79 Mcal de energia digestível.
- Equino em manutenção (ou égua do 1º ao 8º mês de gestação), 450 kg: precisa de 6,3 a 7,7 kg de matéria seca, 567 g de proteína bruta e 14,9 Mcal por dia. Só com silagem, são 20 a 25 kg diários, em 4 a 5 refeições — a proteína fica entre 456 e 557 g, abaixo das necessidades, e a energia entre 17,5 e 21,5 Mcal, de 17% a 44% acima. Por isso o animal engorda, o que não quer dizer que esteja saudável.
- Égua em lactação no 2º mês, 480 kg: precisa de 10 a 12 kg de matéria seca, 1.441 g de proteína bruta e 29,4 Mcal. Só com silagem seriam 32 a 38 kg por dia — além da capacidade de ingestão do equino. Nesse caso é obrigatório ofertar outros alimentos, e o equilíbrio não é fácil de obter.
Triturada: menos mastigação, menos saliva
Por ser triturada, a silagem desfavorece o desgaste natural dos dentes, especialmente dos incisivos, mas também dos molares e pré-molares. Nenhum experimento científico mais antigo levava essas especificidades do equino em consideração. A ausência de desgaste natural leva a problemas dentários que precisam ser corrigidos ao menos uma vez ao ano — um equino em pastagem raramente os tem. Vale ressaltar que o consumo exclusivo de feno também leva a essas alterações dentárias.
Em decorrência da menor mastigação, há menor produção de saliva, que tem ação tamponante no estômago e contém fator de crescimento epitelial responsável pela renovação das células da mucosa gástrica. Menos saliva, maior possibilidade de gastrite e úlcera gástrica.
O excesso de amido e a disbiose
Com efeito mais imediato está o dismicrobismo, ou disbiose, decorrente do excesso de amido da silagem de milho. A digestão do amido deve ser feita por ação enzimática, especialmente pela amilase pancreática, liberada no duodeno.
Como há contrações peristálticas que conduzem o alimento progressivamente por todo o aparelho, se a quantidade de amido for grande — ou se houver estímulo das contrações pela ação das fibras, como na silagem — o amido não é totalmente digerido pelas enzimas e vai parar no intestino grosso, onde ocorre a fermentação microbiana. Essa fermentação excessiva leva à mortalidade da microbiota simbiótica, ocorrendo a disbiose, que permite a proliferação de bactérias patogênicas.
Diminuição da microbiota significa queda da resposta imune local e sistêmica e menor produção de serotonina, precursora da melatonina, responsável pela qualidade do sono, entre outras funções. Cerca de 90% da serotonina do corpo é produzida por células da mucosa gástrica, nutridas pela microbiota simbionte. Além disso, menos microbiota significa menor biodisponibilidade dos nutrientes do volumoso — a dieta fica mais deficitária, mesmo quando a matemática diz que está correta.
Inúmeros casos de profissionais veterinários de campo relatam equinos com problemas em articulações, tendões e musculatura decorrentes de alimentação com silagem de milho. Em razão desses fatores, que podem se manifestar apenas a médio e longo prazo, reafirma-se: não devemos fornecer silagem de milho para equinos, exceto em casos de exceção e por curto período bem definido.
Como se animal gordo fosse sinônimo de animal saudável.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
