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Nutrição Equina · 9 min de leitura

Feno ou capineira: qual é melhor para o cavalo?

Do ponto de vista do bolso e da mão de obra a resposta é uma. Do ponto de vista do cavalo, é outra — e o ponto de corte decide tudo.

por André G. Cintra · MV, Prof. Esp.

A resposta começa com "depende"

Como em qualquer questão referente à nutrição animal, a resposta começa com "depende": inúmeros fatores devem ser levados em consideração. Primeiro vale olhar do ponto de vista humano — características, vantagens e desvantagens de cada opção. Depois, do ponto de vista do equino, afinal o objetivo de termos cavalos é tê-los saudáveis e pelo maior tempo de vida possível.

Feno nada mais é que uma forma de preservação de um alimento, com baixo teor de umidade, podendo ser de gramínea ou de leguminosa. Quando bem produzido e armazenado, pode ser estocado por vários meses, com pouquíssimas perdas de sua qualidade nutritiva.

Como se produz um feno de qualidade

As etapas de produção começam pelo cultivo, fundamental para a qualidade nutricional do alimento final: a planta se alimenta do que o solo é capaz de contribuir. Quanto melhores os cuidados com preparo de solo, adubação e eventualmente irrigação, melhor será a qualidade do feno. Adubação apenas com ureia e NPK entrega somente esses nutrientes; adubo orgânico, com multiplicidade de macro e microminerais, resulta em feno mais rico.

A etapa seguinte é o ponto de corte, que varia conforme a espécie e a época do ano, geralmente entre 28 e 35 dias. Feno cortado além do ponto ideal fica taludo, com excesso de lignina; o cavalo pode recusá-lo — comum com tifton ou aveia — ou apresentar cólica. Depois do corte, o feno seca ao sol e é tombado algumas vezes até o ponto de enfardar: seco demais causa cólica, úmido demais favorece fungos.

Quanto melhor a qualidade do volumoso, mais nutrientes ele oferece e menos complementação com concentrado será necessária.

  • Umidade adequada, ao redor de 10-11%.
  • Coloração esverdeada, maciez ao tato e odor característico.
  • Alta proporção de folha em relação ao talo.
  • Temperatura sempre fria ao toque.
  • Ausência de fungos, bolores e plantas daninhas.
  • Ausência de terra, gravetos ou matérias estranhas.

O ponto de corte da capineira

Na capineira a grande diferença está no modo de fornecimento: ela é oferecida fresca, com alto teor de umidade, e por isso deve ser cortada diariamente e distribuída ao longo do dia, em três ou quatro porções.

Uma boa capineira de capim elefante, como colonião ou napier, deve ser cortada entre 1,60 m e 2,10 m de altura. Abaixo de 1,60 m contém pouca fibra e pode causar diarreia; acima de 2,10 m fica com excesso de fibra, podendo causar cólica por excesso de lignina. O mais comum, porém, é reservar uma área de capineira para o inverno e cortar capim com 3 ou 4 metros de altura — totalmente contraindicado para a alimentação do equino. E, para piorar, pica-se esse capim para que o animal coma tudo, inclusive a parte que pode lhe fazer mal.

Cortar capim para dois dias é um erro: a premissa da capineira é que ela seja fresca. Acima do ponto de corte, seca rapidamente; abaixo dele, pelo elevado teor de água, fermenta com facilidade, causando problemas aos animais, inclusive cólicas.

Praticidade x custo de mão de obra

A grande vantagem do feno está no armazenamento por longo período e na facilidade de fornecimento: um único funcionário consegue atender muitos animais em pouco tempo, bastando colocar o produto na baia ou piquete. Se o local for protegido de sol e chuva, pode-se ofertar apenas duas vezes ao dia. Os fardos devem ser armazenados em ambiente apropriado, protegidos de sol e chuva, longe do chão e empilhados de forma a evitar perdas.

A capineira exige equipamento de corte — manual, costal ou acoplado a trator — e equipamento de transporte. No mínimo duas pessoas para o uso correto, se o objetivo for otimizar o tempo. Some a isso a reserva de área, com o custo da terra. São desvantagens reais, raramente computadas de forma correta.

Do ponto de vista do cavalo: mastigação e dentes

Os dentes do cavalo são hipsodontes: erupcionam ao longo de toda a vida, em ritmo que varia de 2 a 8 mm por ano. Por isso o dente precisa sofrer desgaste a cada movimento mastigatório, e esse desgaste vem de movimentos mastigatórios constantes e prolongados.

A conta é simples. Um equino de 400 kg em manutenção precisa de 6 a 7 kg de feno por dia, o equivalente a aproximadamente 18 a 21 kg de capim fresco. E o que se mastiga mais, 6 kg de comida ou 18 kg? Comparativamente, o animal ingerindo feno realiza ao redor de 4.200 ciclos mastigatórios, e em pastagem ao redor de 6.000 — promovendo desgaste mais adequado dos dentes. Não por acaso a especialização em odontologia equina cresceu intensamente nos últimos 30 anos, acompanhando as alterações que fazemos nas dietas.

Esse estímulo só ocorre se o capim estiver inteiro. Picar ou triturar o capim é uma das piores formas de fornecer volumoso: além de não estimular a mastigação, facilita a fermentação do capim fresco, favorecendo quadros de cólica ou a recusa do alimento. A forma correta é integral, apenas cortado, no piquete ou na baia.

Picar ou triturar o capim para equinos é uma das piores formas de fornecimento de volumoso.

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Saliva: o fator que quase ninguém calcula

A saliva do equino é composta por água (99%), fator de crescimento epitelial — que estimula a renovação das células da mucosa gástrica —, bicarbonato de cálcio, de ação tamponante no estômago, além de muco e ureia. Em condições naturais, um equino de 500 kg produz entre 26 e 31 litros de saliva por dia.

A produção de saliva é definida por três fatores: psicológico (ver o alimento, sentir o cheiro, ouvir o tratador pegando o balde), físico/mecânico, pela mastigação, e a posição da cabeça. Na natureza o cavalo come de cabeça baixa; comer nessa posição aumenta a irrigação sanguínea das glândulas salivares, estimulando ainda mais a salivação. Ou seja: o cocho deve ficar no chão.

Um animal com produção adequada de saliva tem início de digestão mais equilibrado, bom umedecimento do alimento, boa proteção da mucosa gástrica — prevenindo gastrites e úlceras — e boa motricidade digestiva.

Então não devo dar feno ao meu cavalo?

Não é essa a resposta correta. A questão é um meio-termo, sabendo das consequências de cada escolha — e elas sempre existem.

Ao optar pelo feno, busque um de ótima procedência, de um produtor que cuide de sua cultura e seja profissional na produção. Como o animal prefere alimento mais úmido, uma recomendação frequente é submergir o feno em um recipiente que caiba um fardo inteiro por 15-20 minutos e em seguida ofertar ao animal — apenas a quantidade que ele irá ingerir nas próximas duas horas, sob risco de fermentação. Molhar o feno faz com que absorva água e fique mais palatável.

Fenos têm muito mais facilidade de fornecimento, mas cuidados especiais com acompanhamento médico-veterinário, especialmente quanto a manejo e saúde dentária, são fundamentais. As capineiras têm vantagens do ponto de vista do equino, mas para que sejam efetivas os cuidados com cultivo, ponto de corte e forma de fornecimento são cruciais — senão podem trazer mais prejuízos que benefícios.

Autoria e créditos

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.

Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).

Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra

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