A resposta começa com "depende"
Como qualquer questão de nutrição animal, a resposta começa com "depende" — inúmeros fatores devem ser considerados. Do ponto de vista do equino, o melhor alimento é o volumoso de fibra longa, pois seu aparelho digestório evoluiu para esse tipo de alimento. Em condições naturais, volumoso diversificado em pastagem de boa qualidade e água fresca e limpa bastam para viver tranquilamente.
Raramente, porém, o cavalo vive sem a pressão do homem por produtividade — reprodução, crescimento ou trabalho. Ao restringir a diversidade de volumosos, é preciso incluir sal mineral específico para equinos, em cocho à parte e com livre acesso. E quanto maior a especialização do animal, melhor deve ser a oferta de nutrientes: sem complemento, éguas continuam a reproduzir, potros crescem e adultos trabalham, mas não em seu máximo potencial, nem por muito tempo, pelo desgaste excessivo de suas reservas.
Pessoalmente, nomino uma ração como complemento corretor, pois é isso que ela deve ser.
Quais cavalos precisam de ração concentrada
A questão é matemática: a oferta de nutrientes deve atender plenamente a demanda, que muda conforme a categoria fisiológica. Quanto melhor a qualidade do volumoso — pastagem, capineira ou feno —, menor a complementação necessária.
- Sem necessidade de ração (volumoso adequado + sal mineral + água à vontade): cavalos em manutenção, garanhões fora da estação de monta e éguas do 1º ao 8º mês de gestação.
- Com necessidade de ração para melhor desempenho: éguas no terço final da gestação e em lactação, potros em crescimento pós-desmame e cavalos de trabalho.
- Em qualquer caso, a dieta deve ser composta de no mínimo 50% de volumoso.
Tipos de ração: farelada, peletizada, laminada, multicomponente e extrusada
Uma boa ração é uma mistura homogênea de matérias-primas (farelo de trigo, farelo de soja, milho, aveia, farelo de arroz, premix vitamínico-mineral) balanceada por profissional competente. Uma ração é tão boa quanto as matérias-primas que a compõem: misturar ingredientes baratos esperando alta performance é impossível.
- Farelada: mais barata, com três desvantagens — segregação dos ingredientes, excesso de pó (problemas respiratórios e obstrução do canal nasolacrimal) e, quando molhada para evitar o pó, risco de fermentação e cólica.
- Peletizada: a mistura é prensada a 60-70 °C. Elimina as desvantagens da farelada e tem ótimo custo x benefício; o limite é o teor de gordura, em geral até 5-6% de extrato etéreo.
- Laminada: milho e aveia achatados por fora do pelete, com banho de melaço. Tecnicamente não há vantagem, pois triturados dentro do pelete têm melhor digestibilidade.
- Multicomponente: pelete, milho e aveia achatados e compostos extrusados, que permitem mais óleo e energia. Preço mais elevado.
- Extrusada: a extrusora cozinha o amido, melhorando a digestibilidade, e permite maior concentração de gordura e energia. Preço mais elevado.
Qual é a melhor ração?
Com a mesma mistura de matérias-primas, a extrusada será melhor que a multicomponente, que será melhor que as demais. Mas isso só vale para a mesma mistura: uma ração peletizada de ingredientes mais nobres pode ser superior a uma extrusada de matérias-primas ruins.
O melhor produto é aquele que atende às necessidades do seu animal conforme a categoria e complementa o volumoso utilizado, sem deficiências nem excessos.
Como avaliar uma ração antes de comprar
Nenhum item, isoladamente, qualifica um produto — vale a somatória de todos:
- Aparência: embalagem de qualidade, credibilidade da marca, pelete bem formado e homogêneo, com odor e aspecto agradáveis. Preço baixo e qualidade não andam juntos.
- Rótulo: indicação do produto (para qual categoria), níveis de garantia (proteína, extrato etéreo, fibra, matéria mineral, cálcio e fósforo), enriquecimento vitamínico-mineral, composição básica e indicação de uso.
- Indicação de uso: jamais oferecer mais que 1% do peso vivo em ração por dia — 5 kg para um cavalo de 500 kg —, sob risco de cólica.
- Experimentação: científica (testes rigorosos), de terceiros (quem já usou com sucesso) e pessoal, a mais eficiente, observando o resultado no próprio animal.
Quanto e como fornecer a ração
Feita a escolha, algumas regras de fornecimento fazem grande diferença no aproveitamento e na prevenção de cólica:
- Nunca ultrapasse 400 g de ração para cada 100 kg de peso por refeição (2 kg por refeição para um cavalo de 500 kg).
- Quanto menor a quantidade por refeição, melhor o aproveitamento: mais contato do alimento com as enzimas e a mucosa.
- Não misture ração e volumoso: a ração é digerida no estômago e intestino delgado; o volumoso, no intestino grosso, e passa mais rápido, arrastando o concentrado.
- Aguarde 45 minutos para cada kg de ração antes de oferecer o volumoso (2 kg = 90 minutos).
- Respeite o mesmo tempo antes de exercitar o animal, para não desviar a energia necessária à digestão.
Ração é investimento, não gasto
O auxílio de um profissional nutricionista — médico-veterinário, zootecnista ou agrônomo — é um ótimo investimento para otimizar todos os alimentos disponíveis e diferenciar as categorias, atendendo cada animal sem deficiências nem excessos.
A suplementação adequada com concentrado deve ser vista como parte do investimento feito na genética, nas instalações e no manejo, e não como gasto extra diário. Se cuidamos, criamos ou somos proprietários de cavalos, nosso objetivo deve ser sua saúde e o melhor desempenho possível.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
