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Nutrição Equina · 11 min de leitura

Sal mineral para cavalos: por que, quanto e como oferecer no dia a dia

Livre acesso, 80 a 120 g por dia, sal específico para equinos — e por que não oferecer sal branco em cocho separado.

por André G. Cintra · MV, Prof. Esp.

Por que o cavalo precisa de sal mineral

Uma dúvida que sempre vem à mente dos envolvidos no mundo do cavalo é a real necessidade de sal mineral. Por que utilizá-lo? É preciso administrar no cocho com a ração ou deixar em cocho separado com livre acesso? Preciso dar sal branco à parte? E por que apenas nos dias atuais os cavalos necessitam de sal mineral, se não tinham acesso a ele em seu processo evolutivo?

Os nutrientes minerais são essenciais para a utilização da energia e da proteína e para a biossíntese dos nutrientes responsáveis pelo funcionamento do organismo. Entram desde a constituição do esqueleto até funções mais complexas, como constituintes de enzimas e disponibilidade de energia para os músculos.

Em liberdade plena e com diversidade de alimentação, os animais supriam suas necessidades com o que encontravam na natureza. Com a domesticação, o homem restringiu o acesso à diversidade de alimentos e passou a exigir mais: animais com melhor musculatura e maior estatura, que saltem mais alto, éguas com crias anuais e potros com crescimento mais rápido. Apenas com um volumoso pouco diversificado, em geral de um único tipo, o animal não consegue todos os elementos minerais necessários para cumprir essas determinações.

  • Macrominerais (necessários em gramas por dia): cálcio, fósforo, potássio, magnésio, sódio, cloro e enxofre.
  • Microminerais (necessários em miligramas por dia): ferro, zinco, cobre, manganês, cobalto, iodo e selênio.
  • Outros microminerais, como cromo, flúor, silício e boro, são facilmente encontrados na dieta, sem necessidade de suplementação extra.

Suor: a grande via de perda de minerais

Os cavalos evoluíram com uma grande massa muscular, capaz de gerar alta velocidade. Movimentá-la exige muita energia e produz muito calor — a carga de calor do equino é duas a três vezes maior que a de seres humanos no mesmo tipo de exercício.

A forma mais eficiente de dissipar esse calor é o suor. O cavalo tem até 1.200 glândulas sudoríparas por centímetro quadrado; cerca de 50% do calor produzido é dissipado pelo suor e 30% pela respiração. Cerca de 5% do suor é composto por minerais — e, destes, aproximadamente 95% é cloreto de sódio; o restante, cálcio, potássio e magnésio.

Esses minerais precisam ser repostos pela alimentação. Em atividades físicas intensas, com calor e alta umidade, pode ser interessante ofertar um suplemento eletrolítico durante treinos e competições, sempre com água em abundância.

Quando o risco de deficiência aumenta

As rações comerciais são enriquecidas com macro e microminerais, em geral de forma insuficiente para atender às necessidades totais — mas esses valores devem ser considerados ao montar a dieta. Alguns sistemas atuais de criação aumentam a suscetibilidade a deficiências:

  • Melhoramento genético: animais que crescem maiores e mais rápido precisam de aporte mineral à altura, ou haverá malformação do esqueleto; no adulto, o maior desempenho aumenta o desgaste de músculos, tendões e articulações.
  • Uso intenso de grãos de cereais: são desequilibrados em minerais, especialmente na relação cálcio:fósforo, por serem mais ricos em fósforo.
  • Alimentação controlada: confinamento e alimentos conservados de um único tipo limitam a diversidade nutricional.
  • Deficiência do solo: adubação baseada apenas em NPK empobrece o solo em outros nutrientes — a forrageira pode estar viçosa e ainda assim pobre.

Precocidade não é sinal verde para treinar cedo

Uma falsa ideia transmitida pelo melhoramento genético é a de que os animais, por serem precoces, podem ser usados intensamente a partir dos 24 meses. Apesar do tamanho e da musculatura visivelmente evoluídos, tendões, articulações e esqueleto ainda não estão aptos. A precocidade refere-se à formação final do adulto, aos 5 ou 6 anos, e não ao início antecipado da atividade física.

Um estudo na Inglaterra com 314 cavalos de corrida observou lesões graves em mais de 50% dos animais. Na Austrália, com 160 animais, houve lesões osteoarticulares em mais de 42% no primeiro ano de treinamento. Nos EUA, estimou-se que 73% dos Quarto de Milha que iniciam treinamento para o Potro do Futuro não chegam a competir. No Brasil, segundo treinadores, de cada 4 animais que iniciam esse treinamento, 3 não chegam a competir — sem contar as doenças ortopédicas desenvolvimentares (DOD) anteriores ao treino.

Como oferecer o sal mineral

O sal mineral é espécie-específico: sal para equinos é para equinos, e sal de bovinos é apenas para bovinos. As necessidades das espécies são diferentes, e muitos sais para ruminantes contêm promotores de crescimento potencialmente tóxicos para cavalos, podendo levar à morte.

A forma mais correta de atender à demanda diária é manter um cocho específico para sal mineral, com livre acesso. O consumo esperado é de 80 a 120 g por dia, variando com temperatura, umidade, individualidade e categoria (exercício, crescimento, reprodução, manutenção). Em dias quentes ou de trabalho intenso o consumo sobe; em dias frescos ou de repouso, cai.

O consumo de sal está ligado ao de água, que nunca deve ser restrita. Quando o consumo de sal se eleva, a necessidade de água fresca e limpa também aumenta.

Como repor o cocho sem desperdício

A recomendação é administrar o sal diariamente, conforme o consumo do dia anterior. Marque um pote com 100 g e comece com essa quantidade: se ainda houver sal no cocho na hora de repor, coloque um pouco menos; se estiver limpo, um pouco mais.

A campo, pode-se ofertar a cada dois dias (200 g por oferta, dia sim, dia não), proporcional ao número de animais: dois animais, 200 g/dia; cinco animais, 1.000 g/dia. Assim, não há real necessidade de cobrir o cocho, pois o animal consome rapidamente e as perdas com chuva são eventuais.

O sistema tradicional de completar o cocho uma ou duas vezes por mês tende a elevar o desperdício e não garante o consumo: com o tempo, o sal farelado empedra e o cavalo passa a consumir menos.

  • Sal em bloco: muitos animais não se habituam, comprometendo a disponibilidade diária; alguns contêm melaço, o que pode elevar exageradamente o consumo.
  • Ingestão forçada (sal misturado à ração, sem acesso extra): não recomendada, pois leva a excesso quando o animal não precisa ou a deficiência quando precisa mais.
  • Sal do Himalaia: a quantidade de minerais é ínfima e não atende à demanda nutricional do cavalo.

Sal branco ou sal mineral?

Como 95% dos minerais do suor é cloreto de sódio, pode parecer que o cavalo deveria ter mais acesso ao sal branco. Ocorre que o sal branco é, ao mesmo tempo, o principal fator estimulante e o principal fator limitante do consumo de sal mineral. Oferecidos em cochos separados, há tendência de menor consumo do sal mineral — e o animal pode ingerir menos microminerais do que precisa.

Por isso, o ideal é ofertar um sal mineral que contenha a maioria dos macro e microminerais necessários à demanda diária do equino.

Minerais em equilíbrio: o risco da carência induzida

A suplementação mineral deve ser oferecida em equilíbrio — jamais um único elemento buscando um resultado particular, exceto em enfermidades com necessidades específicas. Entre os minerais há sinergismo (um depende do outro para ser absorvido ou utilizado) e antagonismo: o excesso de um elemento pode causar a carência induzida de outro, mesmo que este esteja em quantidade adequada na dieta.

Por exemplo, uma suplementação extra e desnecessária de ferro pode induzir carência de zinco e cobre. Na ânsia de melhorar o crescimento de potros ou o desempenho atlético, alguns proprietários acabam administrando mais nutrientes que o necessário — o que deve ser evitado para preservar a saúde e o bem-estar dos animais.

O fornecimento de minerais ao cavalo deve ser feito de maneira equilibrada, considerando sempre o conjunto dos elementos minerais necessários ao bom funcionamento do organismo.

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Minerais quelatos: vantagens e cuidados

Muitos minerais precisam estar unidos a um aminoácido para serem absorvidos; esse complexo é o mineral orgânico, ou quelato. Nessa forma, há menor interferência de outros elementos do sistema digestório, e a absorção — em geral no duodeno — é mais plena. O ferro quelato, por exemplo, é cerca de 90% absorvido, contra apenas 10% do ferro inorgânico.

É preciso cuidado com suplementos ditos ricos em quelatos: quelar um mineral de forma estável é caro, nem todos os elementos podem ser quelados e nem todo quelato é absorvido — se a molécula não for estável no sistema digestório, ela se rompe e não traz benefício. Os mais comuns são zinco, cobre, selênio, manganês, ferro, fósforo, magnésio, boro e molibdênio.

Diversos trabalhos não observaram melhora de performance pela simples adição de quelatos à dieta. Porém, vindo de empresa idônea, há maior garantia de que o animal esteja de fato absorvendo os minerais. Teoricamente, um sal mineral com esses elementos deve ser formulado para um consumo menor, entre 50 e 80 g diários.

Autoria e créditos

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.

Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).

Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra

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