Os pilares do desempenho
"Uma boa nutrição só ajudará um cavalo a ser capaz de ter um desempenho ideal; não pode melhorar a capacidade intrínseca do animal, nem a combinação cavalo e cavaleiro" (Harris et al., 2006).
Profissionais da área se deparam cada vez mais com situações em que o proprietário ou criador exige conhecimento mais aprofundado para conseguir melhor performance. Para isso, deve-se buscar equilíbrio entre os pilares que sustentam o sucesso da criação e do esporte. Nos animais de criação, o equilíbrio é conseguido entre genética, manejo e alimentação; para os cavalos de esporte, a esse tripé deve-se adicionar o treinamento, específico e direcionado à categoria.
A genética é um fator limitante muito importante para que alimentação e manejo possam produzir um animal acima da média — e a recíproca também é verdadeira: alimentação, manejo ou treinamento podem limitar drasticamente uma excelente seleção genética.
Ciência e arte: o que cada uma resolve
Harris et al. (2006) ressaltam que a alimentação ideal deve ser o equilíbrio entre a ciência e a arte. A ciência é responsável por fornecer informações sobre os processos digestivos e metabólicos, as exigências nutricionais de cada categoria equina — manutenção, reprodução, crescimento e trabalho — e os princípios por detrás das práticas alimentares.
A arte é a habilidade e a capacidade de converter essa teoria em prática, avaliando o cavalo individualmente, suas necessidades e gostos. Ou seja: a competência do profissional e dos responsáveis pelo dia a dia em conhecer e saber avaliar as individualidades de cada animal.
Entende-se por nutrição a parte teórica, a ciência, que determina as necessidades de cada animal de acordo com suas características e categoria. O termo alimentação se refere à tradução prática dessas necessidades teóricas em necessidades alimentares reais. Enquanto a nutrição é baseada em números técnicos e científicos, a alimentação coloca esses números na prática do dia a dia, o que é muito mais complexo.
O fator humano que define o resultado
O manejo diário do cavalo, independentemente da categoria, deve ser tarefa delegada a pessoas competentes. Essa competência não deve ser traduzida como alto nível de escolaridade ou elevado nível social: devem-se buscar pessoas interessadas, abertas a novos conhecimentos, tranquilas, que realmente gostem de cavalos e que sejam atentas aos detalhes do cotidiano, pois estes podem fazer a diferença.
O cavalo, como qualquer ser vivo, é muito suscetível ao humor de quem o trata. Se o tratador não souber separar o trabalho da vida pessoal, talvez o cavalo apresente mais problemas que benefícios. O despreparo do profissional pode levar a situações quase irreversíveis para o equilíbrio mental do cavalo, que irão interferir na forma de ingestão e absorção de nutrientes, comprometendo a performance.
Por outro lado, saber ouvir o cavalo — entendendo como ele se expressa — pode e deve ser um fator relevante na seleção e no treinamento daqueles responsáveis pelo dia a dia. Ouvir o cavalo não se relaciona à expressão verbal, mas a toda a expressão corporal e comportamental do equino: orelhas para trás, tensão no pescoço, membros dianteiros "sobre si", tensão na garupa, cauda entre as patas são sinais de que o manejo não está confortável. E uma resposta negativa aqui se reflete drasticamente no resultado de toda a nutrição oferecida ao animal.
Alimentação racional: o que avaliar no alimento
A chamada "alimentação racional" procura fornecer ao animal alimentos capazes de manter sua vida e proporcionar, com o máximo de rendimento, a produção ou o desempenho pretendido. Antes de qualquer coisa, deve-se ter em mente que a boa alimentação visa levar o cavalo a um estado de saúde adequado, buscando sempre seu bem-estar físico e mental. À medida que avança a especialização genética, aumentam as necessidades de uma nutrição e uma alimentação mais especializadas.
A preocupação com o tipo e a qualidade do alimento disponível deve ser constante na rotina do bom profissional, pois os alimentos variam muito na capacidade de aproveitamento pelo equino: a digestibilidade dos nutrientes varia de 30%, para palhas, até 90%, para o grão de milho.
No mercado existe enorme oferta de alimentos industrializados, desde rações concentradas até suplementos nas mais diversas apresentações, tornando difícil a escolha do melhor produto sem abusar dos custos e dos excessos nutricionais, que são tão prejudiciais quanto as deficiências, ou mais.
- Isenção de substâncias nocivas.
- Ausência de substâncias tóxicas, considerando-se a toxicidade por espécie.
- Adaptação às partes anatômicas do indivíduo.
- Concordância com a capacidade de utilização de cada animal.
- Excelente aceitação pelo animal, ou seja, ser altamente palatável.
- Fornecimento que otimiza ao máximo a absorção de nutrientes pelo animal.
Três princípios que evitam o erro mais caro
Para a utilização de alimentos industrializados, é fundamental ter em mente alguns conceitos básicos de nutrição. O primeiro: se não houver, ou se você desconhecer, uma boa razão para acreditar que o animal exige determinado nutriente ou substância cuja eficácia ainda não foi cientificamente comprovada, este não deve ser administrado ao animal (Cintra, 2011).
Cada dia mais observamos produtos e substâncias sendo ofertadas aos cavalos que não possuem eficácia comprovada, mas que são amplamente divulgadas como eficazes. O problema é que produtos sem comprovação de eficácia podem ainda trazer problemas ao animal, seja por ineficácia, seja por malefício específico.
O segundo e o terceiro princípios vêm de Wolter (1994) — "quando o melhor é inimigo do bom" — e de uma formulação que uso em aulas e palestras desde os anos 2000: não é porque o cavalo precisa de um que dois é duas vezes melhor. Ambos têm o mesmo significado. O proprietário entende que, quanto mais oferece, melhor o desempenho. Entretanto, a ciência mostra amplamente os malefícios que os excessos de determinados nutrientes podem trazer à homeostasia do organismo. Se o animal precisa de uma porção de determinado nutriente, é uma que devo oferecer, baseando-me sempre na ciência.
E acima de tudo: não prejudique.
Não é porque o cavalo precisa de um que dois é duas vezes melhor.
Como montar a dieta na prática
A alimentação básica do cavalo deve ser composta de no mínimo 50% de volumoso, sob diversas apresentações, e o restante pode ser distribuído entre ração concentrada e suplemento, dependendo principalmente das necessidades do animal. Mais que levar em consideração todos os fatores que podem exigir este ou aquele alimento, deve-se observar com atenção as reais necessidades do animal, ofertando a ele aquilo de que realmente precisa.
A boa alimentação inicia com a nutrição: são calculadas as necessidades médias do animal conforme o peso e a categoria, passando pelo equilíbrio entre essas carências e a oferta de nutrientes dos alimentos disponíveis. O equilíbrio parte da escolha da melhor ração concentrada e estende-se até o possível uso de suplementos, buscando otimizar e potencializar o desempenho.
Suplementos devem ser usados com muito critério, sendo importante ressaltar que a utilização adequada dos complementos nutricionais pode melhorar a performance de um animal sem caracterizar doping, pois são substâncias naturais que, aliadas ao treinamento e ao manejo corretos, estimulam o organismo até o limite de seu potencial genético.
Por fim, é preciso considerar que a nutrição se baseia em números científicos, que nada mais são que a média de uma população sob determinadas circunstâncias — e que, portanto, pode ser necessário fazer adaptações àquele animal. Como afirmam Harris et al. (2006), a maioria da pesquisa nutricional em cavalos foi realizada em relativamente poucos animais e se concentrou em alterações de curto prazo na ingestão e na digestibilidade, sendo fundamental ao bom profissional saber adequar a ciência às reais necessidades do indivíduo através da arte.
Um exemplo de ciência e arte juntas
Um exemplo pessoal ilustra bem o ponto. Um animal que conheci apresentava dois aspectos negativos facilmente observáveis do ponto de vista nutricional — costelas aparecendo e opacidade dos pelos — e seis sinais comportamentais de que estava visivelmente incomodado com a situação e com quem a propunha.
Seis a sete meses depois, quando adquirimos esse animal, o quadro era outro. Sem ver um único dia de baia, com alimentação simples mas equilibrada, baseada na ciência, e manejo aplicado através da arte, o animal ficou em piquete com capim fresco adequado, 4 kg de ração de qualidade para um animal de 550 kg, sal mineral específico e água, além de um mínimo de suplemento com probiótico e tratado com o devido respeito às suas necessidades anátomo-fisiológicas e comportamentais. Alcançou-se o resultado almejado de saúde, beleza e performance.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
