Por que a nutrição define a fertilidade
Éguas em reprodução são aquelas que já estão em estágio de crescimento adequado para receber e desenvolver um potro no ventre, o que se dá por volta dos 3 anos de idade. A partir dessa idade, estando o animal apto e em condições físicas, pode ser colocado em reprodução.
A má nutrição é um dos maiores responsáveis pela infertilidade da égua, e sua importância é subestimada. Quando a alimentação é deficitária, podem ocorrer problemas na ovulação (cio não fértil), na nidação, na gestação e mesmo na viabilidade do feto. Quando a má nutrição é grave e prolongada, podem ocorrer abortos — que predispõem a complicações infecciosas comprometendo a fertilidade — ou o nascimento de prematuros e de potros fracos, pouco resistentes, sujeitos à nati-mortalidade.
- Redução das chances de fecundação.
- Retardo do ciclo normal nos anos subsequentes.
- Baixo número de potros nascidos ao longo da vida reprodutiva da égua.
Quanto peso a égua deve ganhar na gestação
A dificuldade prática está em detectar o erro no arraçoamento: é preciso adequar os aportes proteicos, energéticos, minerais e vitamínicos às necessidades reais do animal. Aproximadamente metade da energia consumida pela égua em reprodução é destinada ao metabolismo basal, sendo o restante reservado ao crescimento e desenvolvimento do potro, seja no período intrauterino, seja pelo leite.
No período de gestação a égua deverá ganhar cerca de 13 a 18% de peso, desde que já esteja, no início da gestação, em estado corporal ótimo. Esse ganho se divide em 3-5% na primeira fase, até o 8º mês, e 10-13% no terço final.
Primeira fase: do 1º ao 8º mês
Após a fecundação, a égua deve manter seu peso, ou mesmo engordar se estiver muito magra. As necessidades da mãe são ligeiramente superiores às de manutenção, sendo necessário cerca de 1,4 a 1,7% de matéria seca em relação ao peso do animal.
Nesta fase ocorre um crescimento de cerca de 30% do tamanho do feto. Isto é, um potro que deverá nascer com 50 kg, nesse período irá crescer somente 15 kg. Um volumoso de ótima qualidade, água fresca e limpa à vontade, mineralização adequada e um mínimo de concentrado de qualidade são suficientes para suprir suas necessidades.
Terço final: do 9º ao 11º mês
Nesta fase há um aumento muito grande das necessidades nutricionais: o feto cresce 70% do seu tamanho. Aquele potro que antes cresceu 15 kg em 8 meses, agora crescerá cerca de 35 kg em 3 meses, exigindo muito da mãe. A alimentação fetal passa a ser prioritária em relação à mãe, e está sendo definido todo o potencial genético de crescimento do potro.
A égua também deve adquirir reserva corpórea para que, no início da lactação, não haja perda excessiva de peso. Mas atenção à superalimentação, que traz problemas graves pelo excesso de gordura da mãe e do feto.
A quantidade de proteína do concentrado é de 15-16%, e a energia mediana, com extrato etéreo variável de 3 a 5%. Quanto maior o valor do extrato etéreo, melhor a qualidade da energia e menor poderá ser a quantidade de ração oferecida.
- Dificuldades no parto e complicações associadas, como retenção de placenta e metrite.
- Nascimento de potro frágil, que sofreu durante o parto por anóxia.
- Limitação do aumento necessário do consumo voluntário de alimento no início da lactação, o que limita a produção leiteira e agrava a queda do balanço energético.
Início da lactação: a fase mais exigente
As necessidades energéticas no início da lactação são muito superiores às do período de gestação: praticamente dobram em um ou dois meses. Em relação ao peso, esta categoria exige de 2,3 a 3% de matéria seca — 11,5 a 15 kg por dia para uma égua de 500 kg, o equivalente a 38 a 50 kg de pastagem, ou 13 a 19 kg de feno, ou ainda 25-35 kg de pastagem mais 4 kg de ração de boa qualidade.
As éguas de raças de sela (Mangalarga, Quarto de Milha, Campolina) produzem em média 15 a 17 litros de leite por dia, com picos de 20 a 22 litros, enquanto as raças de tração pesada chegam a 25 litros diários, com picos de 30 a 32. Dessa alta produção vêm as elevadas necessidades energéticas.
A suplementação com concentrados se faz necessária pois a égua pode estar prenhe nesta fase: ela acumula tripla função — manutenção, lactação e nova gestação. A proteína do concentrado deve ser de 15-16%, e a energia mediana a alta, com extrato etéreo de 3 a 5%. Paralelamente ao aspecto quantitativo, é fundamental considerar as necessidades qualitativas em proteínas, energia, minerais e vitaminas, pois as reservas são muito modestas e as carências frequentes.
Final da lactação e a decisão do desmame
Do 4º ao 6º mês as necessidades da égua caem drasticamente, ficando pouco acima das de manutenção. A produção leiteira reduz-se quase à metade e o potro já se alimenta de capim ou feno, que suprem parte de suas necessidades. A ração da égua pode ser reduzida, se o estado físico permitir e desde que haja volumoso de qualidade em grande quantidade.
O desmame pode ser feito comercialmente, do 4º ao 6º mês de vida do potro, ou biologicamente, entre o 5º e o 9º mês. O desmame precoce traz vantagens para a égua — menor exigência de nutrientes e mais tempo de preparo para o próximo potro. Para o potro, não traz nenhuma vantagem, nem física e especialmente nem psicológica, podendo comprometer seu aprendizado e sua segurança no meio em que vive.
Resumindo o ciclo: necessidades pouco superiores à manutenção no início da gestação e no final da lactação; necessidades especialmente proteicas no final da gestação; e necessidades muito acentuadas, especialmente energéticas, no início da lactação. O fornecimento de minerais e vitaminas por todo o período de gestação e lactação é fundamental para o bom crescimento do esqueleto do potro.
Deficiências proteicas na lactação levam à queda na produção leiteira, com diminuição do crescimento do potro — e os excessos energéticos trazem as mesmas consequências. Tais necessidades somente podem ser atendidas com complementação de concentrados, pois a capacidade de ingestão de volumoso da égua não supre adequadamente essas fases.
Um bom estado corporal da égua no momento do parto é uma garantia do nascimento de um potro saudável e com ótimo desenvolvimento pós-natal.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
