Pense em como o cavalo age na natureza
Muitas dúvidas surgem no dia a dia sobre mastigação e salivação em equinos. Na verdade, poucos planejam ações para melhorar, facilitar e potencializar essas questões fisiológicas no manejo diário considerando as reais necessidades do cavalo. Três pontos resolvem a maior parte do problema: a altura do cocho, o tamanho da partícula do volumoso e a umidade desse alimento.
Sempre que tiver dúvidas quanto ao que é ideal para o animal, pense em como ele age na natureza — princípio básico do bem-estar animal, e não por acaso.
Qual a altura ideal do cocho?
O mais próximo do chão possível. É frequente encontrar cochos de ração na altura do peito, para que o cavalo não tenha "trabalho" de baixar a cabeça, e fenis elevados logo acima do cocho para evitar desperdício. Isso traz consequências desastrosas para a fisiologia digestiva.
Muitos cavalos jogam o alimento de cochos elevados para comer no chão, e o tratador reclama que o animal é "porco" — chegando a colocar barras de ferro no cocho. Na verdade, esse animal está sendo mais inteligente que o homem, preferindo atender à sua fisiologia evolutiva de ingerir alimento do chão.
Ao se alimentar de cabeça baixa, ocorre elevação da irrigação sanguínea nas glândulas salivares, promovendo maior salivação.
Qual o tamanho ideal da partícula do volumoso?
O mais integral e longo possível, dentro de um manejo correto de pastagens: capim ou feno fornecido sem picar e, preferencialmente, em pastagem. Mesmo com capim do tipo elefante, o ideal é oferecer na forma integral ou, no máximo, cortado a facão com tamanho mínimo de 10 cm.
O dente do cavalo é hipsodonte — tem erupção contínua por toda a vida — e precisa de desgaste correto para manter uma oclusão funcional. A pressão de um molar sobre o outro varia de 89 a 199 kg por dente a cada ciclo mastigatório, e o pastoreio natural pode durar até 20 horas por dia. Quanto maior a partícula, mais mastigação, mais desgaste fisiológico e mais saliva. Sem esse desgaste surgem os problemas odontológicos tão comuns hoje.
Qual a umidade ideal: feno ou capim fresco?
A maior possível — preferencialmente alimento fresco, com umidade ao redor de 70%. Se houver apenas feno, pode-se molhá-lo por 10-15 minutos antes do fornecimento; a mudança de cor do feno reidratado é visível. Alguns cavalos, diante de um feno seco, colocam-no sozinhos no bebedouro antes de comer.
Intuitivamente, muitos pensam: alimento seco, boca seca, mais saliva. Esse raciocínio está incorreto. Com feno, o cavalo realiza 55 a 66 ciclos mastigatórios por minuto, cerca de 4.200 por dia. Com capim fresco, que tem maior volume (7 kg de feno equivalem a aproximadamente 21 kg de capim), são 100 a 105 ciclos por minuto, cerca de 6.000 por dia. A pastagem fresca estimula mais a mastigação e, portanto, mais saliva.
Por que a saliva protege o estômago
A saliva equina tem ação tamponante do bicarbonato, que equilibra o pH ácido do estômago — o ácido clorídrico lesiona a mucosa na ausência de saliva —, e é rica em um fator de crescimento epidermal que promove a renovação dessa mucosa. Um cavalo de 500 kg produz entre 25 e 30 litros de saliva por dia. Quanto mais saliva, mais protegida a mucosa gástrica, prevenindo gastrite e úlceras.
O estímulo à salivação pode ser externo (ver o alimento, sentir seu cheiro, ouvir o tratador pegando o balde) ou interno, representado pela posição da cabeça e pelo tempo de mastigação.
Por isso, cavalos estabulados que ingerem apenas alimentos secos (ração e feno), com tempo de mastigação limitado, apesar de matematicamente nutridos, nem sempre apresentam o resultado esperado e frequentemente são acometidos por úlceras gástricas. O estresse do confinamento é de difícil solução em grandes centros, mas pequenas mudanças — altura de alimentação, tamanho da partícula, umidade e quantidade de forragem — ajudam a amenizar muitos problemas diários.
Esse animal está sendo mais inteligente que o homem, preferindo atender a sua fisiologia evolutiva de ingerir alimento do chão.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
