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Protocolos · 13 min de leitura

Tratador qualificado: o investimento que mais muda a saúde do cavalo

Cinco Liberdades, Cinco Domínios e um caso real: treinar a equipe reduziu quase 25% do gasto com alimento e quase 80% com medicamentos.

por André G. Cintra · MV, Prof. Esp.

Bem-estar é uma questão de ética

Para o filósofo Mário Sérgio Cortella, ética é o conjunto de valores para responder a três perguntas: quero? devo? posso? Quando falamos de animais, acrescento uma quarta: eu preciso disso?

As Cinco Liberdades (Comitê Brambell, 1965; FAWC, 1979) — livre de fome e sede, de desconforto, de medo e estresse, de dor, lesões e doenças, e livre para expressar o comportamento natural — são um marco, mas mais conceituais que práticas.

Os Cinco Domínios (Mellor e Reid, 1994, atualizados até 2020) avaliam nutrição, ambiente, saúde e interações comportamentais e suas consequências no estado mental do animal. O mais relevante: permitem quantificar o que está errado e enxergar a oportunidade de corrigir. E toda correção passa pela qualificação da mão de obra.

O mesmo animal, outro manejo

Em foto para venda de uma égua, segurada pelo tratador que a conhecia desde sempre, havia pelo menos seis sinais de desconforto: orelhas para trás, pescoço tenso, membros anteriores sob o corpo, garupa contraída, cauda entre as pernas e cabresto puxado para cima. Cinco meses depois, com boa alimentação e ótimo manejo — sem um dia sequer em baia —, a mesma égua estava tranquila em uma exposição.

A ciência confirma: em suínos, Gonyou et al. (1986) observaram ganho médio diário de 830 g após interação negativa com o tratador, 870 g sem interação e quase 900 g após interação positiva.

E percepção não basta. Whay et al. (2003) perguntaram a fazendeiros a taxa de claudicação de suas vacas: responderam menos de 5%; medida de verdade, passava de 20%. Bem-estar não pode ser "eu acho que".

Isolamento: o que os cavalos sentem

Baldock e Sibley (1990) isolaram uma ovelha em piquete vizinho ao grupo. Vendo os outros, ela vocalizava uma vez a cada 5 minutos e a frequência cardíaca subia 2 a 3 batimentos. Com um tapume bloqueando a visão, foram 4,5 vocalizações por minuto e 20 batimentos a mais. Equinos têm comportamento muito próximo ao das ovelhas.

Presas só repousam quando outra está de vigília. O cavalo solto sozinho quer voltar para a baia porque, na mente dele, pode morrer.

Contenção sem dor

"Quebrar o rabo", orelhar, focinhar e fazer prega na paleta são métodos comuns e errados: causam dor e estresse e formam cavalos irritados e de difícil manejo, depois chamados de "índole ruim".

Manipular o potro desde as 5 ou 6 horas de vida, depois que a mãe faz o imprinting, cria uma base positiva para a vida toda. A pergunta certa não é "como contenho meu potro?", mas "por que meu potro fugiria de mim?". Se ele não tem motivo para fugir, a contenção é simples.

O mais importante é escolher um tratador que goste de animais, com paciência e muita capacidade de observação — e treiná-lo com um profissional competente.

Os Cinco Domínios na rotina

  • Nutrição: avaliar o volumoso (úmido demais, seco, taludo, cheiro estranho, manchas, embalagem rasgada) e a ração (embalagem, finos, fungos, caminhão enlonado), e dividir o alimento em muitas refeições. Excesso de nutrientes é tão ruim quanto falta.
  • Ambiente: baia de no mínimo 3,5 x 4,0 m, cama de 10 cm limpa diariamente, boa ventilação e contato com vizinhos; soltar ao menos 2 horas por dia.
  • Saúde: vacinação, vermifugação, observação diária e a consciência de que saúde é o normal. Mais de 95% das cólicas vêm de erros de manejo.
  • Livre de dor: estudos (Evans e McGreevy, 2011; Wilson et al., 2018; Thompson et al., 2020) não encontraram melhora de velocidade ou tempo com o uso de chicote.
  • Interações: segundo Jones (2020), quem está junto ao cavalo deve manter a calma por dois segundos quando ele se assusta para que ele perceba que não há perigo.

Estresse custa caro

O estresse piora o comportamento, reduz a absorção de nutrientes (um de seus efeitos mais relevantes é o déficit energético), causa disbiose e favorece uma menor resposta imune.

Hemsworth e Coleman (1998) descrevem um ciclo: atitudes negativas do manejador geram comportamentos negativos, os animais tentam escapar e isso reforça a atitude original. O oposto também vale: atitudes positivas reduzem a reatividade. Em vacas leiteiras, cerca de 20% da variação na produção de leite é explicada pelo medo que elas têm das pessoas.

Um caso real

Há quase 20 anos, em um haras com 26 funcionários e quase 200 animais em menos de 25 hectares, criamos um treinamento mensal de 45 minutos, no fim da tarde, começando pelo comportamento equino. No dia seguinte, vários funcionários me agradeceram: nunca tinham sido valorizados assim, e passaram a relatar o que viam no dia a dia.

O resultado mais palpável para o proprietário foi financeiro: redução de quase 25% no gasto com alimento e de quase 80% com medicamentos. Melhores condições de vida, menos problemas de saúde.

Os entraves são dois: enxergar o treinamento como investimento ("se eu treinar, o vizinho rouba meu funcionário") e entender que qualificar a equipe começa por qualificar a si mesmo.

Se as pessoas assumem a responsabilidade de criar animais, devem também assumir a responsabilidade de lhes dar condições de vida decentes.

Temple Grandin

Autoria e créditos

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.

Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).

Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra

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