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Saúde & Prevenção · 8 min de leitura

Bem-estar equino: as cinco liberdades aplicadas à rotina do haras

Dar comida, água, vacina e baia abrigada não é bem-estar — e o melhor indicador de que você acertou é a saúde do animal.

por André G. Cintra · MV, Prof. Esp.

A pergunta difícil: do que um cavalo precisa para ter uma vida boa?

"Do que um animal precisa para ter uma vida boa?" Essa questão é levantada pela Dra. Temple Grandin em seu livro O Bem-Estar dos Animais (Editora Rocco, 2009) e talvez seja uma das perguntas mais complexas que podemos ter em nossa vida com nossos amigos equestres.

A dificuldade não está em achar que sei o que meu cavalo precisa do ponto de vista humano, mas em buscar quais as reais necessidades do cavalo para ter uma vida boa do ponto de vista dele.

Nos últimos anos, no Brasil, a questão do bem-estar animal tem sido levantada como bandeira por muitos ativistas e gente do cavalo, procurando a melhor condição para os animais. Mas essa questão vem sendo debatida no mundo há mais de 50 anos, com muitos buscando cientificar o bem-estar animal de forma a demonstrar os efeitos maléficos que uma condição ruim de vida pode trazer. O problema é definir o que é uma condição de vida ruim — e essa condição deve ser vista do ponto de vista animal, pois ele é o maior interessado.

Liberdade total não é a resposta — nem o confinamento

Muitos radicais dirão que, do ponto de vista animal, ele quer ficar solto e livre o tempo todo, sem nunca ser utilizado. Isso é uma meia verdade, pois já vi muitos cavalos que sentem prazer nas provas e passeios e se sentem inúteis quando não estão em contato com o ser humano e sendo utilizados rotineiramente.

Conheci uma égua Puro Sangue Árabe que foi aposentada aos 20 anos e solta em um piquete com outros animais, onde havia companhia, espaço e alimento adequado. Essa égua definhou de tal forma que o proprietário achou que iria morrer e pediu para que ela fosse encocheirada e recebesse um trato melhor. O animal se recuperou parcialmente, mas sempre cabisbaixo. Era uma égua de competição de salto, e o dono do centro hípico perguntou se não poderia utilizá-la nas aulas de escolinha, pois pela idade e experiência poderia servir de professora para alunos novos. A reviravolta foi impressionante: em menos de um mês essa égua parecia ter 10 anos de novo, voltando a engordar e a ter brilho nos olhos, sendo utilizada por mais alguns anos e vivendo com mais intensidade.

Por outro lado, apenas utilizar o animal não é suficiente, e alguns exageram nessa condição de uso, abusando do animal "porque ele aguenta" — e aí ocorrem os problemas que muitas vezes inutilizam em definitivo os animais.

Comum não é normal

Essa questão ultrapassa o simples "dou boa comida e água, vacino e vermifugo meus animais e os mantenho em uma baia, abrigado de chuva e vento". Isso não é bem-estar, apesar de muitos resumirem dessa forma.

A imensa maioria dos cavalos utilizados em competições no mundo tem essa condição de vida. Mas observamos que, nesses mesmos cavalos, a enfermidade que mais mata é a cólica — e a imensa maioria das cólicas pode ser prevenida por correções de manejo. Ou seja: nós propiciamos condições para nossos animais que podem levá-los à morte. E certamente isso não é bem-estar animal.

Outra enfermidade cada vez mais comum entre os equinos é a úlcera gástrica, condição tratada regularmente com medicamentos como se fossem suplementos. Drogas não foram feitas para uso contínuo, pois têm efeitos colaterais e poderão causar outros problemas no futuro. Úlceras podem ser decorrentes de diversos fatores, a imensa maioria causada pelo manejo ruim que o homem impõe ao animal, seja nutricional, seja pela rotina diária.

Infelizmente é cada vez mais comum ouvir de proprietários, treinadores e mesmo de colegas veterinários que cólicas e úlceras são normais em cavalos. Normal é estado de saúde. Doença não é estado normal. Se são comuns pelo mau uso do cavalo e das condições em que mantemos esses animais, não quer dizer que sejam normais: apenas são comuns porque não propiciamos as condições ideais de vida para eles.

Normal é estado de saúde. Doença não é estado normal. Se cólicas e úlceras são comuns, é porque não propicio as condições ideais de vida.

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

As cinco liberdades

Para auxiliar a dirimir essa questão, nos anos 90 o comitê Brambell, do Reino Unido, estabeleceu cinco condições para definir o bem-estar dos animais, abordando desde o bem-estar físico até o psicológico, ou mental. Essas condições são o que chamamos de "As Cinco Liberdades".

Existe grande complexidade em concretizar todas essas condições na rotina diária, mas somente se eu buscar isso intensamente é que posso efetivamente dizer que meu animal está em condição de bem-estar animal rico. É quase impossível manter as cinco liberdades o tempo todo, mesmo na natureza, mas propiciar condições para que isso seja alcançado o máximo de tempo possível deve ser o objetivo de quem realmente quer o melhor para seus animais — e isso do ponto de vista animal.

  • Livre de fome e sede.
  • Livre de desconforto.
  • Livre de dor, maus-tratos e doenças.
  • Livre de medo e estresse.
  • Livre para expressar seu comportamento natural.

E na prática diária, o que fazer?

Começa por reavaliar o que se entendia até agora como bem-estar animal, observando que muitos que dizem aplicá-lo estão muito longe de fazê-lo na prática, no que diz respeito ao animal em si e às suas necessidades. Muitos praticam atos que vão contra o verdadeiro bem-estar animal em nome da tradição e da cultura — e são pessoas que vivem do cavalo e dizem amar nossos amigos equestres. Muitas vezes precisamos rever nossos conceitos e reavaliar nossas atitudes.

No dia a dia, o reflexo de efetividade do bem-estar do animal está na condição de saúde. Não falo apenas em não ter cólica ou úlcera, apesar de esses serem ótimos indicadores de que estou no caminho certo, mas em observar condições que vão além do resultado esperado.

O que observei na prática

Nos últimos anos, trabalhando com o que denomino nutrição comportamental, os resultados que vejo em meus animais, e de alguns clientes, são muito além do esperado.

Tenho três animais que viveram por mais de oito anos em um centro hípico com condições que considero próximas do ideal. Nesse local vivem mais de 150 cavalos, de diversos proprietários e raças, com apenas 35 baias e muitos piquetes. Meus animais ficavam em um piquete exclusivo, com alimentação no cocho e cercados por outros animais em piquetes adjacentes. O tratador é o mesmo e a alimentação básica é a mesma: apenas a filosofia de cuidados e a forma com que me relaciono com eles é diferenciada.

Certa vez um amigo, que tem animais no mesmo local, disse que eu tinha sorte em ter animais tão dóceis, pois ficava fácil pegá-los no pasto, já que os dele eram arredios e ele tinha que mantê-los na baia, o que elevava os custos. O que esse amigo nunca entendeu é a construção do relacionamento que mantenho com meus animais: eles não precisam ter receio da minha aproximação, pois, mesmo que possam ser trabalhados, nada é feito de forma que eles não gostem — mesmo que seja uma cavalgada de cinco dias. Portanto não têm motivos para fugir quando nos aproximamos.

Mas o mais interessante que pude observar, um resultado de certa forma inesperado, foi em relação ao estado nutricional e de saúde. Como nutricionista, sempre calculo a quantidade de alimento e nutrientes que os cavalos devem receber, buscando nas pesquisas científicas dados para atender a essa demanda. Com esses meus cavalos, as contas ficam no vermelho: a matemática científica indica que faltam nutrientes e os animais não deveriam conseguir atender ao seu estado fisiológico. Ocorre que, na prática, estou com um "problema", pois meus animais estão acima do peso, mesmo comendo apenas 1,3 kg de ração por dia, com bom volumoso como alimento principal.

Com relação a enfermidades, não consigo me lembrar quando foi a última vez que meus animais tiveram problemas de saúde. E vivem soltos, dia e noite, com chuva ou sol forte. No piquete existe uma árvore para abrigo, mas acima de tudo existe a vida saudável de um cavalo em companhia de seus pares, com boa alimentação e equipe que sabe o respeito que tenho por meus animais. Isso é bem-estar animal.

Autoria e créditos

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.

Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).

Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra

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