Por que falar de estresse na clínica
Falar sobre bem-estar é sempre um desafio. Muitos acreditam e afirmam que dar água, comida e abrigo, vacinas, sal mineral e feno à vontade é suficiente para atender às necessidades de um animal saudável. Se para esses animais isso está longe de ser chamado de bem-estar, imagine para animais acometidos por enfermidades clínicas e cirúrgicas, em que a emergência exige atitudes drásticas para a manutenção de uma vida.
A vida em um hospital ou clínica veterinária não é fácil para o profissional: pressões de horários, cuidados extremos, emergências sobre emergências, pouco pessoal. Considere então o paciente, que não pode reclamar, apenas tolerar e, muitas vezes, reagir com agressividade a uma atitude brusca por falta de tempo do ser humano. Dessa forma, acabamos por comprometer sua resposta imune e seu retorno ao estado de saúde.
Reconhecer sinais de estresse torna-se fundamental para melhorar as condições de um animal, independentemente do seu estado sanitário. Indivíduos tidos como saudáveis também são submetidos a estresse, raramente detectável porque "o animal sempre foi assim" ou "ele é nervoso, o pai dele também era".
O que é estresse e quais suas fases
O termo foi emprestado da física, indicando tensão e desgaste dos materiais. Em medicina, muitas são suas definições, como a proposta por Selye (1946): estresse é uma resposta não específica do corpo a qualquer demanda, seja ela causada por, ou resultando em, condições favoráveis ou não favoráveis. O estresse pode ter três fases: alarme ou alerta (ruptura do equilíbrio), resistência (respostas fisiológicas e comportamentais) e exaustão (cronicidade).
Zimpel (2005) define estresse como o conjunto de alterações fisiológicas e comportamentais, com repercussões no sistema imune, que o organismo desenvolve diante de um desafio de natureza física ou psicossocial que rompe a homeostase e exige esforço de adaptação.
A forma como o estresse se manifesta em cada indivíduo é diferente: há diferenças nos receptores do hormônio do estresse, na reatividade e nos níveis de pico. Diversos estudos sugerem que fatores genéticos, experienciais e ambientais desempenham papel nessas diferenças individuais. Por isso costumamos achar que alguns animais são mais difíceis que outros. Se a experiência humana e os indivíduos humanos reagem de forma diferente, como não esperar que os cavalos também o farão?
O estresse pode ser dividido em dois tipos: agudo, de curto prazo, ou eustresse, e crônico, ou distresse. O agudo se inicia após uma fase de alarme, com respostas do sistema nervoso autônomo e alteração de frequência cardíaca, respiratória e pressão arterial nos primeiros segundos — é ele que permite que uma presa fuja do predador. Após alguns minutos, caso o agente estressor não tenha sido eliminado, ocorre resposta neuroendócrina do sistema hipotálamo-hipófise-adrenal, com liberação de cortisol. Em condições normais, catecolaminas e cortisol voltam ao normal tão logo o agente estressor seja eliminado. Se ele persiste, ocorrem desregulação de processos fisiológicos como sono, metabolismo e comportamento, com envelhecimento biológico acelerado e elevação do consumo energético, levando a déficit de energia.
Interessante destacar a afirmação de Dhabhar (2012): o processo de evolução não selecionou a resposta biológica ao estresse para adoecer, incapacitar ou matar, mas sim para ajudar a sobreviver. O estresse pode ser positivo, mas isso ocorre apenas no eustresse.
O que o estresse faz no aparelho digestório
No aparelho digestório observam-se redução da circulação sanguínea intestinal, redução da produção de enzimas digestivas e menor vitalidade do trânsito digestivo. Essas situações favorecem a disbiose, elevam o consumo de glicose, reduzem a disponibilidade de aminoácidos e permitem proliferação da microbiota patogênica com seus efeitos deletérios.
Ocorre ainda hipomobilidade intestinal, favorecendo quadros da síndrome cólica, úlceras gástricas e esteatose hepática, com elevação do catabolismo e redução da resposta imune.
Lembre-se de que 90% da resposta imune se inicia no aparelho digestório, assim como 80 a 90% da produção de serotonina. Esta é responsável pelo movimento peristáltico e pela resposta antioxidante no organismo, e será produzida nas células parácrinas da mucosa intestinal a partir de nutrientes disponibilizados pela microbiota. Sem microbiota, sem serotonina.
Cabe destacar um artigo recém-publicado de Barton et al. (2024) sobre a relevância do jejum perioperatório em equinos. Cavalos com acesso contínuo a feno antes e após a recuperação da anestesia eliminaram mais esterco e o fizeram mais cedo após a cirurgia do que seus pares em jejum, sem efeitos prejudiciais nos parâmetros anestésicos e complicações pós-operatórias. Ou seja: manter volumoso à disposição favorece o microbioma e a recuperação clínico-cirúrgica, estressando menos o cavalo.
Ouvindo os cavalos: os sinais que escapam
Uma das grandes frases, de autor anônimo, que gosto é: bons profissionais do cavalo falam com animais; ótimos profissionais ouvem o que eles têm para dizer. Em tempos de cursos de doma das mais diversas origens, muito se ensina sobre como falar com seu cavalo, mas poucos sabem ouvir o que os cavalos estão dizendo.
Em estudo de Esteves (2017), com cavalos de trabalho em fazendas de gado no Centro-Oeste brasileiro, observou-se que a troca de apoio nos membros anteriores é sinal de estresse e cansaço físico, pré-exaustão e, potencialmente, dores e pré-laminite. E note que aqui nem se fala em expressão facial, frequências cardiorrespiratórias ou sudorese — apenas movimentação de alívio nos membros anteriores. Trabalho com cavalo há mais de 45 anos e nunca havia observado isso.
O bufo equino está associado a situações reconhecidamente positivas para os cavalos, como alimentação em pastagem, e a um estado interno positivo, conforme estudos de Stomp et al. (2018). Não se deve confundir bufo com sopro, sendo este sinal de medo, insatisfação e desconfiança diante de algo desconhecido.
Lewis et al. (2025), da Universidade de Portsmouth, catalogaram mais de 805 expressões faciais dos equinos para expressar 22 comportamentos diferentes. Em 1999, Dursteweitz et al. observaram que, apesar das diferenças na organização anatômica dos cérebros de aves e mamíferos, a organização do sistema dopaminérgico e as funções comportamentais são muito semelhantes entre essas espécies. E a Declaração de Cambridge sobre a Consciência dos Animais, de 2012, reconhece que animais não humanos possuem os substratos neurológicos da consciência.
O ser humano como entrada de bem-estar — ou de estresse
Sankey et al. (2011) observaram a reação de equinos a indivíduos conhecidos e desconhecidos dando os mesmos comandos: a resposta aos indivíduos que os cavalos conheciam era muito mais favorável, com menor nível de estresse. Isso parece óbvio. Então por que não é sempre o mesmo profissional quem assiste a um cavalo na recuperação clínico-cirúrgica?
Estudos do Heart Math Institute observaram que o campo magnético emitido pelo coração se irradia para fora do corpo e carrega informações que afetam outras pessoas e nossos animais: até cerca de 3 m nos humanos e até 15 m nos cavalos. Ou seja, o cavalo percebe suas emoções e intenções a essa distância — e é uma via de duas mãos.
Janet Jones, autora de Horse Brain, Human Brain (2020), afirma que quem trabalha com cavalos lida com medos equinos todos os dias: se parecermos nervosos ou irritados, o cavalo também ficará. Mas quando reagimos com calma, o cavalo aprende com o tempo a fazer o mesmo. Imagine então o efeito de agirmos apressadamente com animais enfermos e em recuperação.
Entradas são aquilo que se faz ou propicia — ambiente, ser humano e individualidade do animal. Saídas são as respostas do animal a essas entradas, através da produtividade ou resposta ao tratamento, do comportamento e da fisiologia. As respostas comportamentais agressivas são muitas vezes consideradas normais, pois é assim que um animal enfermo reage. Mas posso afirmar categoricamente que não é normal a agressividade do cavalo: infelizmente é comum, mas nunca normal.
Cavalo saiu de sua rotina, está estressado. Do ponto de vista prático, não adianta buscar mensurar o nível de estresse.
Como reconhecer — e por que não medir cortisol
Chegamos ao ponto principal: como reconhecer os sinais de estresse e o que fazer para minimizá-lo? Aqui é mais simples do que parece: cavalo saiu de sua rotina, está estressado.
Do ponto de vista prático, não adianta buscar mensurar o nível de estresse, pois em relação à homeostasia há intenso desequilíbrio qualquer que seja a intensidade do estresse — e isso afeta a saúde do animal. E se chegar a um nível cujos sinais se observam externamente, a recuperação pode estar comprometida intensamente e, potencialmente, de forma irreversível.
Também não adianta medir nível de cortisol, pois estudos afirmam que equinos em estresse crônico podem não elevá-lo: a adrenal, depois de certo tempo sob estímulo, deixa de elevar o nível do cortisol. Assim, devemos considerar que as alterações fisiológicas do estresse estão ocorrendo em todos os animais em recuperação e afetam sua recuperação, mesmo que não pareçam.
Quatro frentes para atenuar o estresse
Diante desse quadro, devemos tomar quatro frentes de ação, sempre dentro de uma linha de bom senso baseada nas necessidades individuais de recuperação de cada cavalo.
Ao cuidar dos cavalos, devemos buscar uma visão holística: um sistema não pode ser definido apenas pela soma de suas partes, mas como um todo. Curar a doença não deve ser o objetivo, mas sim curar o indivíduo que ali está sendo afetado.
- Atender às necessidades do ser cavalo, cujos princípios comportamentais se baseiam em quatro pilares: presa, gregário, liberdade e alimentação baseada em volumoso de fibra longa e alta umidade.
- Dar suporte nutricional adequado baseado em volumoso fresco e de fibra longa, enriquecido com aminoácidos de alta biodisponibilidade — sem dieta hiperproteica —, vitaminas e minerais, e óleos vegetais específicos às necessidades do animal.
- Dar o adequado suporte ao microbioma e à microbiota: começa pelo fornecimento adequado do volumoso e passa pela administração de simbióticos (probiótico + prebiótico) de empresa idônea e de qualidade, para todos os cavalos, em dose relativamente elevada.
- Buscar qualificação, nossa e de quem trabalha com os cavalos: compreender como funciona o comportamento do cavalo e como agir para estarmos em sintonia.
Recomendações práticas para hospitais, clínicas, haras e centros hípicos
Em 2017, a pedido do Prof. Geraldo Eleno (UFMG), buscamos organizar um Grupo de Estudos em Bem-estar Equino (GEBEE), visando resgatar a proposta da medicina veterinária em que o indivíduo é o objetivo. Em junho de 2018 realizamos um workshop para elaborar diretrizes e recomendações para hospitais veterinários, clínicas e quaisquer instituições que atuem na recuperação de animais, inclusive para atendimentos e intervenções em haras e centros hípicos.
Ser menos aversivo com as técnicas e com os animais melhora a cooperação a médio e longo prazo, reduz o estresse, melhora a recuperação, favorece a resiliência com aumento do limiar da dor, traz maior segurança para quem manuseia os animais e leva a menor esforço físico e desgaste mental do ser humano e do animal. Dar importância aos pequenos detalhes do dia a dia leva a ações simples que fazem diferença: caminhar com o animal, permitir contato com outros, cuidar da limpeza e do conforto nas baias e, acima de tudo, ter paciência, sempre. Lembre-se: ele não quer estar ali. Você sim.
- Instalações: adequar baias de internação, isolamento, piquetes, cercas e equipamentos às necessidades do paciente, e não do local onde foram construídas; adequar instalações de embarque e desembarque e o transporte entre sala de indução, mesa cirúrgica e sala de recuperação.
- Manejo: adotar metodologias que reduzam riscos na recuperação anestésica, considerar períodos ao ar livre com alimentação natural e locomoção quando não prejudicarem o tratamento, e regulamentar horários de exames e visitas.
- Alimentação: preferir volumoso produzido na própria instituição, melhorar a qualidade do volumoso, preferir alimentos frescos ou feno de qualidade superior, restringir o concentrado a produtos de qualidade superior e usar simbiótico como rotina em pacientes em recuperação.
- Procedimentos: checklist no manejo de acessos arteriovenosos, medidas preventivas de enfermidades secundárias, práticas específicas para potros em lactação junto às mães, monitoração e administração de fármacos em horários regulares, sedação em procedimentos aversivos e restrição do uso de cachimbo como método de contenção.
- Equipe: técnicos treinados no manejo do paciente equino, regimento hospitalar dinâmico com avaliação do bem-estar na chegada e durante a estadia, convivência diária do tratador de confiança e treinamento para interpretar e padronizar o diagnóstico da dor.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
