Um setor bilionário que dá prejuízo
Na Revisão do Estudo do Complexo Agronegócio Cavalo (Lima e Cintra, 2016), o setor movimentava perto de R$ 16 bilhões — cerca de R$ 23 bilhões em valores atuais —, com aproximadamente 640.000 empregos diretos e 3,2 milhões indiretos.
Ainda assim, vale o ditado: "a melhor forma de fazer uma pequena fortuna com cavalos é começar com uma grande fortuna". Desperdício, má gestão e falta de foco levam a prejuízo constante — mesmo entre empresários de sucesso na cidade.
Por que o empresário de sucesso perde no campo
Primeiro, porque não aplica na propriedade rural o modelo de gestão da sua empresa: enxerga o haras só como lazer. Uma propriedade, de qualquer tamanho, precisa ao menos cobrir os custos todo mês.
Segundo, porque cobra dos funcionários responsabilidades incompatíveis com seu nível de formação. Não se trata de contratar universitários para limpar baia, mas de ter responsáveis preparados e investir sempre na qualificação de quem cuida de animais, às vezes muito valiosos.
A paixão é ótima para a convivência com os cavalos, mas a gestão deve ser profissional. Busque especialistas em cada área — arquiteto ou engenheiro com profissional do setor equestre preocupado com o bem-estar, engenheiro agrônomo para pastagens — e verifique a reputação de quem contrata.
Projeto para o cavalo, não para o dono
O cavalo não precisa de luxo. Os investimentos para ele podem ser simples e funcionais. Já vi um empresário nivelar todo um terreno montanhoso: ficou bonito, mas a qualidade da terra para plantio se perdeu, e o capim plantado sem análise nem adubação levou dois anos para brotar.
- Haras ou centro hípico? Qual raça ou modalidade?
- Tenho acesso a criadores, informações e eventos da raça?
- A demanda local é compatível com a atividade escolhida?
- Há mão de obra técnica e braçal disponível?
- Quais produtos vou vender: potros, coberturas, sêmen, aulas, hospedagem, treinamento?
- Como vou divulgar e vender, e quais são meus custos fixos e variáveis?
O gerente certo
O gerente do haras é o gerente geral da sua empresa. Deve ter conhecimentos mínimos de tudo o que envolve o empreendimento (incluindo comportamento equino, administração e contabilidade), ser de confiança incontestável, trabalhar como se o negócio fosse dele, saber comandar uma equipe sem fazer tudo sozinho e estar aberto a inovações.
Precisa anotar ocorrências e contabilizar todos os gastos diariamente. O simples fato de um conceito ter passado de pai para filho não o torna verdadeiro.
Mão de obra é investimento
Contratar e qualificar a equipe e ter assessoria independente nas áreas veterinária, zootécnica e agronômica deve ser encarado como investimento em economia inteligente de alimentação, manejo e medicamentos.
Mão de obra pouco qualificada causa doenças, aumenta gastos com remédios, derruba o desempenho e o preço dos animais. A cólica, afecção que mais mata cavalos no mundo, é causada em pelo menos 95% dos casos por erros de manejo. Uma cólica leve custa no mínimo cerca de R$ 1.000; casos de vários dias dobram ou triplicam essa conta, e os cirúrgicos vão muito além.
O cavalo é um animal apaixonante, que respeita muito a convivência com o homem, desde que suas necessidades reais sejam respeitadas.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
