Rever conceitos à luz da ciência
"A verdade de hoje é o caso particular de amanhã", disse Otto Koehler a Konrad Lorenz no início do século XX. Ainda hoje há profissionais que tomam como verdade única aquilo que aprenderam — e os protocolos de vermifugação estão nesse rol de forma tão profunda que ainda se diverge sobre alternar ou não o grupo químico. A cada aplicação? Uma vez ao ano? Nunca?
Qual o intervalo ideal: 60, 90, 120 dias? Animais de baia a cada 60 dias, soltos a cada 90 ou 120? Depende do grupo químico ou das associações? A profilaxia com drogas é uma prática a ser preconizada ou apenas um hábito que facilita a rotina? E a saúde do animal, recebendo regularmente drogas, pode ser afetada?
- Protocolo terapêutico: a droga deve ser efetiva ao menos contra o estágio patogênico do parasita, eliminar a infecção e cessar sinais clínicos como diarreia e angústia respiratória.
- Protocolo profilático: considerar custo, custo-benefício frente a outros controles (manejo das pastagens, exame de OPG), não interferir na imunidade adquirida, resistência existente na propriedade e evitar o uso prolongado de uma mesma droga.
Como chegamos à resistência parasitária
O hábito de comer diretamente do solo onde defeca e a grande variedade de parasitas gastrointestinais favorecem, em teoria, a reinfestação constante — inclusive em animais de baia, onde pode ocorrer coprofagia. As mudanças da domesticação (seleção genética, restrição de movimento e alta concentração de animais) alteraram o equilíbrio natural entre hospedeiro e parasita.
A indústria buscou drogas cada vez mais eficientes e de amplo espectro; o fácil acesso e o preço baixo levaram ao uso em larga escala. O conceito arcaico de que "é melhor aplicar o remédio do que alimentar vermes" acelerou a resistência. Veterinários, proprietários e treinadores continuam usando programas baseados em conceitos de mais de 40 anos.
O que os estudos mostram
No Brasil, Canever et al. (2013), com 498 cavalos em 11 haras, observaram resistência generalizada ao fenbendazol, eficácia crítica do pirantel e suspeita preocupante de resistência às lactonas macrocíclicas (ivermectina e moxidectina). No Rio Grande do Sul, Flores et al. (2020) encontraram resistência múltipla dos ciatostomíneos inclusive a associações, como fenbendazol + moxidectina e fenbendazol + pirantel.
No Reino Unido, Daniels e Proudman (2016) observaram que o tempo de reaparecimento dos ovos caiu de 10 semanas para 5 a 8 semanas com ivermectina e moxidectina. Nielsen (2022) relata que, nos anos 1990, a eficácia dessas drogas durava de 10 a 16 semanas; a partir dos anos 2000, caiu para cerca de 5 semanas, independentemente do grupo químico.
Em São Paulo, Favare et al. (2023) avaliaram 123 cavalos em 12 propriedades com ivermectina a cada 60 dias e encontraram resistência em 8 delas, sugerindo relação com a frequência de aplicação, independentemente do manejo. No México, Flota-Burgos et al. (2023) observaram resistência em 68% dos animais tratados 4 vezes por ano. Há relatos semelhantes na Alemanha, Itália, Austrália, Argentina, Irlanda e Estados Unidos.
Quaisquer medidas a serem tomadas passam por um certo trabalho: não é mais "aplica uma bisnaga que passa".
Menos aplicações, mais diagnóstico
As associações de grupos químicos ainda são usadas para contornar a resistência, mas a tendência, a curto e médio prazo, é que também gerem resistência. É preciso repensar o uso indiscriminado de vermífugos, frequentemente sem nenhum critério além do "foi assim que aprendi".
Na Bélgica, Guerden et al. (2021) acompanharam por 3 anos dois haras que aplicavam vermífugo de 4 a 6 vezes por ano. Reduziram para duas aplicações anuais, com controle de OPG a cada 15 dias, e não observaram aumento de doenças parasitárias.
Em estudo da UFSC (Neves et al., 2023), 29 cavalos de baia foram monitorados por 7 meses com contagem de ovos por grama de fezes (OPG) e coprocultura. A imensa maioria manteve OPG próximo de zero ou baixo (menos de 200), dispensando a droga: 93% dos cavalos não necessitariam de vermifugação. Além da perda de eficácia, protocolos pré-determinados geram desperdício de recursos e contaminação do solo e da água.
Animais contaminadores: o alvo do tratamento
Diversos estudos identificam os animais contaminadores — responsáveis pela maior parte dos ovos eliminados no ambiente e que correspondem, em geral, a no máximo 20% do rebanho. São estes que precisam ser identificados pelo OPG e acompanhados individualmente, com terapia seletiva e mais frequente. No estudo da UFSC, apenas um dos 29 animais se apresentava consistentemente assim.
Um cuidado comum: muitos responsáveis se preocupam apenas em não repetir o nome comercial ou o princípio ativo, sem garantir que o grupo químico seja de fato alterado.
Linhaça: um aliado nutricional
Górniak et al. (2021) observaram redução significativa do parasitismo em cavalos Puro Sangue Árabe e Puro Sangue Inglês que receberam óleo de linhaça (0,5 ml/kg de peso vivo/dia, por 60 dias), em comparação com óleo de soja e grupo controle; a adição de vitamina E não teve efeito adicional. Uma ótima dica de manejo nutricional, com efeitos extras na performance.
O manejo que realmente funciona: tirar as fezes
A medida sanitária que torna a prevenção mais eficiente e permite espaçar as aplicações é a colheita das fezes: limpeza de baias, piquetes e pastagens, com destinação à esterqueira. Nos Estados Unidos existem equipamentos agrícolas para isso; no sudeste da Flórida, o problema das fezes no lençol freático levou os municípios a determinar a remoção do esterco de cavalo.
Rotação de pastagens e vazio sanitário só são eficazes se durarem quase um ano sem animais. Roçar o pasto para expor as fezes ao sol só funciona se for muito baixo e por período longo, o que inviabiliza o uso pelos animais. Mais trabalho? Sim — porém com real eficácia e menor custo, pois elimina a compra de drogas aplicadas sem necessidade.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
