Comer com inteligência é uma arte
"Comer é uma necessidade, mas comer com inteligência é uma arte", escreveu La Rochefoucauld. No sistema atual, em que restringimos, selecionamos e disponibilizamos tudo o que o cavalo come, essa frase ganha enorme importância. Muitas pessoas dispostas a investir acabam alimentando seus animais de forma excessiva ou desequilibrada, originando distúrbios superagudos, como a cólica, crônicos, como a laminite, ou subclínicos, que aparecem tardiamente.
A boa nutrição deve se basear nas reais necessidades do animal, e não naquelas que achamos que ele tem. "Achismos" ou a cópia do que o vizinho faz podem ser tão prejudiciais quanto não ofertar os nutrientes adequados — e pesam no bolso, pois muitos produtos são caros e nem sempre necessários.
Energia, e não proteína, move o músculo
Para cavalos de esporte, um conceito fundamental é que o trabalho muscular é condicionado ao fornecimento de energia, e não de proteína. A construção muscular se dá na fase de crescimento, e não no adulto. A oferta indiscriminada de alfafa pode trazer mais prejuízo que benefício a esses animais.
Mesmo para potros, que têm necessidade elevada de proteína, deve-se limitar leguminosas como a alfafa, que elevam também a energia da dieta e podem predispor às doenças ortopédicas desenvolvimentares (DOD), como osteocondrite, osteocondrose e epifisites. A alfafa pode ser utilizada, mas depende de um balanceamento equilibrado com os outros alimentos.
O feno de gramínea tipo A também pode gerar excesso de proteína: a classificação A, B e C da Embrapa foi feita para animais de produção, em que dietas mais proteicas maximizam leite e carne em uma vida produtiva determinada. Para o equino, deseja-se longevidade com saúde e desempenho.
A matemática da porcentagem
Qual a melhor ração? Aquela que atende às reais necessidades do cavalo — considerando a proteína total da dieta, e não apenas a da ração ou a do volumoso.
Uma ração com 15% de proteína tem 150 g por kg; uma de 12%, 120 g. A diferença de 30 g corresponde a 25% de 120 g: ou seja, a ração de 15% tem 25% mais proteína, e não apenas 3%. Mantida a mesma quantidade de ração, a dieta pode se tornar hiperproteica.
Um bom balanceamento leva isso em conta. Em um caso de cavalos de enduro que só podiam receber concentrado uma vez ao dia, optou-se por 2 kg de uma ração com 16% de proteína (320 g de proteína), complementando a energia com óleo. A ração premium para enduro da época tinha 11% de proteína, com recomendação de 3 kg no rótulo — 330 g de proteína, mais que a ração de 16% em menor quantidade.
Proteínas e aminoácidos
As proteínas são formadas por aminoácidos e exercem funções de catálise enzimática, transporte, suporte mecânico, proteção imunológica, transmissão do impulso nervoso e controle do crescimento celular. Todas são construídas a partir de cerca de 20 aminoácidos; o que muda é a sequência e a quantidade.
Aminoácidos essenciais são aqueles que o organismo não sintetiza em quantidade suficiente — o que não significa que se deva suplementá-los artificialmente em todos os animais. Uma dieta equilibrada, com matérias-primas nobres e diversificadas, oferece toda a gama necessária. Apenas lisina, metionina e treonina têm necessidade quantitativa estabelecida; arginina e histidina são essenciais para potros e idosos.
Em 1999, Staniar comparou potros com dieta equilibrada em proteína segundo o NRC e potros com dieta restritiva suplementada com lisina e treonina: ambos cresceram igualmente. A suplementação equilibra uma dieta restritiva, mas dietas equilibradas não precisam dela — exceto em casos de exigência elevada, como em animais idosos, e só eventualmente.
- Essenciais: arginina, fenilalanina, histidina, isoleucina, leucina, lisina, metionina, treonina, triptofano e valina.
- Não essenciais: ácido glutâmico, ácido aspártico, asparagina, alanina, cisteína, glicina, glutamina, prolina, serina e tirosina.
Por que o excesso de proteína faz mal
Consolidou-se a ideia de que um animal bem tratado deve comer muita proteína — alfafa e rações com cerca de 15%, ou até 18 a 21% em 4 a 6 kg diários. Todo animal, porém, deve ter um limite: no máximo 30% além do preconizado pelo NRC ou INRA, considerando concentrado, volumoso e suplementos.
Na digestão da proteína é liberada amina, convertida em amônia e, no fígado, em ureia — um ciclo que custa energia ao organismo. A presença de proteína no estômago também estimula gastrina e histamina, que elevam o ácido clorídrico, podendo favorecer gastrites e úlceras. O excesso de amônia no intestino causa disbiose, com:
- Enterotoxemia: proliferação de bactérias patogênicas no ceco e no cólon.
- Timpanismo e cólicas: mais gases e pior digestão das fibras.
- Emagrecimento: pior digestão e absorção dos nutrientes.
- Na circulação: problemas hepáticos e renais, queda de glóbulos vermelhos, má recuperação após o esforço, queda na espermatogênese e suor espumante com perda de eletrólitos.
- Também: úlcera gástrica, maior calor metabólico, fadiga precoce, amônia nas baias afetando a respiração e maior secreção de insulina, favorecendo a síndrome metabólica equina.
Um problema que demora a aparecer
Um dos grandes obstáculos ao reconhecimento dos malefícios de dietas hiperproteicas é que os problemas não surgem de imediato: podem levar de 6 meses a 3 anos. É comum o proprietário dizer que a dieta é a mesma há anos e, por isso, não pode ser a causa — mas é justamente por estar desequilibrada há tanto tempo que os problemas aparecem.
O equilíbrio nutricional deve priorizar energia proveniente de fibras e gorduras, usando a proteína apenas para atender às exigências específicas. O excesso proteico representa risco à saúde, ao desempenho, ao meio ambiente e à economia do criador.
O manejo nutricional deve priorizar qualidade, e não quantidade de proteína.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
