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Nutrição Equina · 12 min de leitura

Feno à vontade para cavalo? Quantidade, qualidade e manejo do volumoso

Para cavalos estabulados, o segredo não é o consumo máximo, e sim o consumo ideal — dividido em pequenas porções ao longo das 24 horas.

por André G. Cintra · MV, Prof. Esp.

Quantidade, qualidade ou manejo: o que importa mais?

O que é mais importante para um cavalo: a quantidade de alimento, a qualidade do alimento ou o manejo diário? E como responder sem comprometer a saúde física e mental do animal? Antecipando a resposta: os três fatores são fundamentais. E mais — o volumoso não deve ser deixado à vontade para equinos em regime intensivo ou semi-intensivo, cuja oferta e acesso ao alimento estão nas mãos do ser humano.

A recomendação tradicional de manter o volumoso sempre à vontade baseia-se em estudos que mostram que, na natureza, o cavalo pasta de 10 a 16 horas por dia, em refeições de 2 a 3 horas separadas por descanso, locomoção e atividades sociais. Porém, incorremos em diversos erros ao transpor isso para a baia:

  • O estudo é com cavalos em pastagem, com liberdade, companhia e alimento diversificado sempre fresco.
  • A rotina do cavalo estabulado é completamente diferente.
  • A alimentação se concentra quase toda no período diurno, em geral entre 7h e 17h.
  • Devemos priorizar o consumo ideal, adequado e equilibrado — nunca o consumo máximo.

Refeições pequenas digerem melhor

Metayer et al. observaram que grandes refeições esvaziam o estômago mais rapidamente, e alimentos ricos em amido chegam mais rápido ao intestino delgado. Ou seja: pequenas refeições ao longo do dia maximizam o aproveitamento enzimático e microbiano, inclusive do volumoso.

A Profa. Sarah Ralston (2008) observa que cavalos com livre acesso costumam fazer refeições pequenas em intervalos não superiores a 3 horas, raramente ficando voluntariamente mais de 3 a 4 horas sem comer. Venable et al. mostraram que uma única grande refeição de concentrado altera a abundância e a composição da microbiota cecal, em comparação com três refeições menores. Quanto mais refeições, como na natureza, mais saudável para o cavalo: mais saúde, melhor desempenho, menor custo.

O risco do volumoso à vontade: obesidade

Ofertar volumoso à vontade vai contra as recomendações nutricionais e pode ter consequências desastrosas — a principal delas, a obesidade. Em 2021, Shepherd, Harris e Martinson avaliaram cavalos em mais de 35 países e encontraram obesidade ou sobrepeso em 30% dos equinos alimentados com feno à vontade. A obesidade em éguas reprodutoras também afeta o ciclo reprodutivo.

Quanto volumoso o cavalo precisa por dia

Segundo o NRC (2007), um cavalo em manutenção precisa de 2,0% do peso vivo em matéria seca, podendo chegar a 2,5% em trabalho intenso. Para o INRA, os valores vão de 1,4 a 1,7% em manutenção até 3% para éguas em lactação ou cavalos em trabalho muito intenso.

Assim, um cavalo de 450 kg precisa de cerca de 10,5 kg de feno (85% de MS), ou 30 kg de capim fresco (30% de MS), ou 20 kg de pré-secado (45% de MS) para manutenção; e 13 kg de feno, 37 kg de pastagem ou 25 kg de pré-secado se for cavalo de esporte. O volumoso deve corresponder a, no mínimo, 50% da dieta total, complementado pelo concentrado para atender energia, minerais e vitaminas.

Uma boa dieta para um cavalo de esporte de 450 kg em trabalho médio pode ser, por exemplo, 7 kg de feno de tífton de boa qualidade mais 3,5 kg de uma ração com 12% de proteína e 3,9 Mcal de energia — cerca de 9,3 kg de matéria seca, dentro das necessidades.

Mas a capacidade de ingestão do cavalo chega a 3% do peso vivo. No mesmo exemplo, se o feno ficar à vontade com os 3,5 kg de ração, ele pode ingerir até 12 kg de feno, e a oferta de proteína ultrapassa em 84% as necessidades, e a de energia, em 76%. Além da obesidade, o excesso de proteína prejudica a saúde sistêmica.

O problema da noite longa sem comida

Na rotina comum de cavalos de esporte, a ração é dada às 7h e às 16h e o feno às 8h e às 17h. Como um cavalo confinado ingere 1 kg de feno em cerca de 40 minutos, os 3,5 kg da última refeição terminam em menos de 2,5 horas — e o cavalo fica mais de 9 horas sem ter o que comer, totalmente fora de seu padrão natural.

Exemplo de rotina diária que respeita o cavalo

Para um cavalo Brasileiro de Hipismo de 460 kg, em trabalho médio, com 4 tipos de estereotipias por isolamento, confinamento e alta concentração de alimento por refeição, foi proposto — com a conivência do tratador — o seguinte manejo:

  • 6h30: 600 g de um mix de ração de alta fibra e de alta energia + suplementos.
  • 7h30: 1 hora solto em piquete com 1 kg de feno, com um animal conhecido no piquete ao lado.
  • 8h30: retorno à baia e 1 kg de feno.
  • 10h: trabalho diário de até 1 hora.
  • 11h: 600 g do mix de ração + suplementos. 12h: 1 kg de feno.
  • 15h: 600 g do mix de ração + suplementos. 16h: 1 kg de feno.
  • 18h30: 600 g do mix de ração + suplementos. 19h: 4 kg de feno.

Por que essa rotina funciona

A baixa oferta de ração (2,4 kg/dia em 4 refeições de 600 g) maximiza a digestão e a absorção, permitindo reduzir a quantidade. Suagee-Bedore et al. (2020) demonstraram que acima de 1,14 g de amido por kg de peso vivo por refeição — 342 g para um cavalo de 450 kg — há inflamação pós-prandial que compromete a microbiota e favorece a síndrome metabólica.

Soltar um cavalo isolado em piquete sem ter o que comer é a pior situação comportamental. Equinos são presas e só repousam quando outro, que reconheçam como parte do seu grupo, está de vigília. Antes, esse cavalo corria o tempo todo querendo voltar para a baia; solto com a vizinha de baia no piquete ao lado, ficou menos ansioso e passou a comer o feno.

As porções pequenas de feno ocupam o cavalo com calma e alimentam a microbiota gradualmente. E 50% do volumoso foi ofertado o mais tarde possível. Em propriedades com vigia noturno, já foi possível oferecer ração às 23h e feno à 1h; para refeições noturnas, comedouros automáticos de concentrado também são uma ótima opção.

Sempre que possível, diversifique diariamente os volumosos: a microbiota é específica para cada tipo de alimento. Thorne et al. (2005) mostraram que forragens variadas reduzem o aparecimento de estereotipias em cavalos estabulados, e o direito de escolha ameniza situações de estresse.

Qualidade do feno: mais proteína não é melhor

Melhor alimento não é o que tem mais deste ou daquele nutriente, e sim o que oferece as quantidades necessárias, sem deficiências nem excessos, conforme o estado fisiológico e o peso ideal do animal. No Brasil, os padrões de qualidade de forragens conservadas da EMBRAPA baseiam-se principalmente em bovinos: um feno tipo A (11 a 12% de proteína bruta) é especial para gado de leite, mas não o mais indicado para equinos.

O ideal para o cavalo seria um feno com a qualidade do tipo A, mas com 8 a 10% de proteína bruta, especialmente para atletas. Hoje é cada vez mais comum encontrar tífton com 12 a 14% de proteína, como se fosse desejável. A alfafa, com 20 a 24% de proteína e relação cálcio:fósforo ao redor de 5:1 (quando o cavalo precisa de cerca de 1,8:1), não é o alimento mais indicado, especialmente para atletas; o excesso de cálcio pode levar a rigidez óssea e favorecer fraturas.

O excesso de proteína gera amônia e ureia que, em dietas hiperproteicas, não são eliminadas e podem causar disbiose, enterotoxemia, problemas hepáticos e renais, emagrecimento, má recuperação após o esforço, queda na espermatogênese, transpiração excessiva, cólicas, timpanismo e favorecer a laminite. O trabalho muscular depende de energia, não de proteína: o cavalo de esporte precisa de apenas 10 a 20% mais proteína que um cavalo em manutenção.

Existe o ideal e o possível. Quando o ideal não é possível, o possível deve ser feito para se adequar o manejo ao cavalo, e não o cavalo ao manejo.

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Considerações finais

A dieta deve ser equilibrada, sem deficiências nem excessos. O concentrado deve ser o mínimo possível, dividido em muitas refeições. O volumoso deve atender às necessidades do animal conforme a categoria, dividido em pequenas porções ao longo das 24 horas. Quantidade e qualidade definem o que oferecer; o manejo potencializa como o cavalo aproveita os nutrientes, respeitando seu comportamento e bem-estar.

Autoria e créditos

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.

Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).

Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra

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