Ciência e arte na alimentação
"Antes de curar alguém, pergunte se ele está disposto a desistir das coisas que o deixaram doente", dizia Hipócrates. Como não podemos perguntar ao cavalo o que ele não quer comer, o cuidado com o que oferecemos e como ele reage se torna imprescindível — sobretudo em uma espécie que padece com frequência de problemas gastrointestinais.
Segundo Harris et al. (2006), a alimentação ideal tem duas vertentes: a ciência, que mostra como funcionam a digestão, o metabolismo e as exigências nutricionais; e a arte, que converte essa teoria na prática, avaliando cada animal individualmente. Para Wolter (1994), arraçoar é satisfazer as necessidades nutricionais com alimentos suficientes, adaptados às características digestivas e equilibrados.
O grande segredo é o equilíbrio: quando a necessidade é maior que a oferta, há perda de peso e desempenho; quando a oferta supera a necessidade, há excesso de peso e enfermidades. "Não é porque o cavalo precisa de um, que dois é duas vezes melhor."
- Base da dieta: volumoso, no mínimo 1,2% do peso vivo em matéria seca — quanto mais volumoso, mais natural a dieta.
- Sal: de zero a 120 g/dia, conforme suor, trabalho e temperatura.
- Ração concentrada: no máximo 1% do peso vivo, dividida no maior número de refeições possível.
- Suplementos: apenas conforme as reais necessidades do animal.
O que é o amido e onde ele é digerido
Os nutrientes energéticos dividem-se em lipídeos e carboidratos. Os carboidratos podem ser solúveis — açúcares, amido (reserva de energia dos vegetais) e glicogênio — ou estruturais — celulose, hemicelulose, pectina, inulina e lignina. O amido é um carboidrato solúvel que se degrada rapidamente em açúcares simples, usados como combustível. Na verdade, é apenas mais um nutriente, a ser ofertado de forma equilibrada.
No cavalo, a amilase salivar é irrelevante. A digestão química começa no estômago e o amido é degradado principalmente no intestino delgado, pela amilase pancreática, e absorvido. A capacidade dessa enzima, porém, foi moldada pela evolução da espécie.
Quanto amido o cavalo ingere na natureza
Gramíneas frescas têm cerca de 2 a 4% de amido (tifton 85 e coast cross frescos, 2%; feno de coast cross, 5%); algumas, como o capiaçu, chegam a 14%. Um cavalo de 450 kg a pasto ingere cerca de 450 g a 900 g de matéria seca por hora em 13 a 16 horas de pastejo — o que, com 2% de amido, resulta em 117 a 144 g de amido por dia, cerca de 9 g por hora. Mesmo com 4% de amido, seriam 234 a 288 g por dia.
Considerando as necessidades do INRA para diferentes categorias apenas com pastagem, o consumo diário de amido seria de 154 a 192 g para égua no 10º mês de gestação, 180 a 270 g para égua no 3º mês de lactação, 76 a 140 g para potro de 18 meses e 210 a 270 g para cavalo em trabalho médio — algo entre 6 e 21 g por hora.
Evolutivamente, portanto, a necessidade de digerir amido sempre foi baixa por dia e por hora. O excedente que não é quebrado no intestino delgado segue para o intestino grosso, onde sofre fermentação — com consequências desastrosas.
Quanto amido há nos concentrados
Como o volumoso, por melhor que seja, não atende à demanda energética do cavalo domesticado e atleta, passou-se a fornecer concentrados. Mas o teor de amido dessas matérias-primas é muito superior ao das pastagens, e as rações costumam ter entre 18 e 25% de amido — ou mais, quando há muita aveia e milho.
- Milho floculado: 78%. Milho fubá: 72%. Milho quirera: 58%. Milho rolão: 52%.
- Sorgo: 74%. Arroz quirera: 73%. Cevada: 66%. Aveia em grão: 53%.
- Farelo de trigo: 33%. Farelos de soja, algodão e girassol: 5 a 6%.
Os limites por refeição ao longo dos anos
A quantidade de amido por refeição tem sido revista justamente porque as evidências mostram problemas com doses altas. Para um cavalo de 450 kg:
- Potter (anos 1990): 3,5 a 4 g/kg de peso vivo — 1 a 1,2 kg de amido por refeição.
- NRC (2007): 2 g/kg — 600 g por refeição, ainda muito acima da capacidade evolutiva.
- Martin-Rosset (2012): no máximo 1,1 g/kg — 330 g por refeição.
- Suagee-Bedore (2020): inflamação pós-prandial a partir de 1,14 g/kg — 342 g por refeição.
- Profa. Roberta Brandi (USP, 2024): máximo de 1 g/kg — 300 g por refeição.
Como é a prática tradicional
Com o manejo tradicional de 1% do peso vivo em concentrado em uma ou duas refeições, um cavalo de 450 kg recebe: 2 kg de aveia em 1 refeição, 1.060 g de amido; 5 kg de aveia em 2 refeições, 1.330 g por refeição; 4,5 kg de ração com 18% de amido, 405 g por refeição; com 25% de amido, 560 g; e misturas de aveia com ração, de 755 a 842 g por refeição. Lembrando que a ingestão de ração leva cerca de 10 minutos por kg.
O que o excesso de amido provoca
Quando não é digerido de forma eficiente nas porções iniciais, o amido chega ao ceco e ao cólon e sofre fermentação microbiana, com produção excessiva de gases e ácido lático. Isso altera propriedades osmóticas, provoca diarreia, queda do tônus digestivo, dilatação do ceco, eventualmente cólica, e favorece disbiose, miosite e laminite (Wolter, 1994).
Bailey (2006) descreve a acidose láctica, frequentemente seguida de laminite. Milinovich et al. (2008) relacionam a laminite induzida por carboidratos a mudanças marcantes na microbiota do intestino posterior. Willing et al. (2009) mostram alterações rápidas da comunidade bacteriana na transição de forragem para alimentos ricos em amido. Baixa riqueza bacteriana está associada a adiposidade, resistência à insulina e perfil inflamatório, sinais da síndrome metabólica equina; Elzinga et al. (2016) observaram menor diversidade microbiana em cavalos com essa síndrome.
O amido também afeta o comportamento. Destrez et al. (2015 e 2016) observaram que, conforme se eleva o teor de amido, aumentam a vigilância, a neofobia e a ansiedade, e diminui a socialização.
Fornecer ou não o amido? Como fazer na prática
O amido é, sim, uma boa forma de elevar a energia da dieta — mas com parcimônia e aliado a um manejo correto. A indústria de rações do mundo todo tem buscado níveis de amido cada vez menores. Na prática clínica, a estratégia é fracionar a ração em até 5 refeições, com no máximo 200 g de ração por 100 kg de peso vivo por refeição — idealmente 600 a 700 g —, valorizando o volumoso e rações mais energéticas, com extrato etéreo mais elevado. Com 900 g por refeição, o amido fica entre 162 e 225 g. Se ainda faltar energia, o óleo vegetal é muito eficiente.
Exemplo de manejo para um cavalo de 460 kg em trabalho médio, solto parte do dia: 6h30, 600 g de ração + suplementos; 7h30 e 8h30, 1 kg de feno; 11h, 600 g de ração; 12h, 1 kg de feno; 15h, 600 g de ração; 16h, 1 kg de feno; 18h30, 600 g de ração; 19h, 4 kg de feno.
Existe o ideal e o possível. Quando o ideal não é possível, o possível deve ser feito para se adequar o manejo ao cavalo, e não o cavalo ao manejo. Acima de tudo, não prejudique.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
