Os números que ninguém gosta de ver
Em levantamento retrospectivo na Universidade de Liverpool, Baker e Ellis (1981) observaram que a maior causa de óbitos de cavalos foi decorrente de distúrbios do sistema alimentar. Nos Estados Unidos, até 28% das enfermidades em fazendas são cólicas, e a mortalidade por essa causa perde apenas para a velhice (Tinker et al., 1997). França e Suécia apresentam o mesmo quadro (Leblond et al., 2000; Egenvall et al., 2008).
No Brasil, estudo retrospectivo da UFSM relatou que 23% das mortes no hospital veterinário foram por cólica, a maior causa (Pierezan et al., 2009). No Reino Unido, a recorrência em cavalos que já tiveram cólica fica em torno de 50% (Scantlebury et al., 2011). Bland (2016) cita que 10% dos cavalos nos EUA terão cólica em algum momento da vida, com mortalidade de 11%.
Existem mais de 70 problemas intestinais diferentes que causam sintomas de cólica, de leves a fatais. Mas por que, então, "matamos cavalos"? Porque, no mínimo, 95% dos quadros ocorrem por erros de manejo — e quem maneja os cavalos somos nós.
Comum, sim. Normal, jamais
Ainda hoje muitos acreditam que cólica em cavalo é normal — ouvi isso até de colegas veterinários. Mas normal é o estado de saúde; doença é um mal a ser evitado a todo custo, do tratador ao proprietário e ao médico-veterinário.
Scantlebury et al. (2014) mostraram que há pouca informação sobre como proprietários avaliam e gerenciam episódios de cólica. Muitos não sabem identificar os sinais nem entendem a importância do diagnóstico precoce e do atendimento rápido para o retorno do animal à saúde.
Também não é verdade que o cavalo "nasceu para ter cólica". A anatomia que o tornou tão eficiente por milhões de anos não é um defeito: é o ser humano que não se adapta às particularidades da espécie.
Os quatro preceitos e a microbiota
Quatro características permanecem imutáveis na evolução do cavalo: é presa, é gregário, evoluiu em liberdade (caminhando de 2 a 11 km por dia) e é herbívoro, com um aparelho digestório que evoluiu em simbiose com microrganismos capazes de digerir fibra longa.
Quando presa, liberdade e convívio em grupo não são respeitados, o estresse intenso desequilibra a microbiota, compromete o aproveitamento dos alimentos e favorece a cólica. Com a flora benéfica afetada, microrganismos patogênicos se proliferam livremente.
O volumoso de fibra longa é o próprio alimento da microbiota. Equilibrada, ela favorece a produção de serotonina, também ligada aos movimentos peristálticos — mais saúde intestinal e menos risco de cólica.
Boca: onde a digestão começa
O dente do cavalo cresce por toda a vida, de 2 a 3 mm por ano. Em pastagem, o desgaste é natural; com feno, capim triturado e grãos, o desgaste fica desequilibrado e compromete mastigação, salivação e todo o processo digestório.
Em pasto, o cavalo faz cerca de 6.000 movimentos mastigatórios por hora, de 80.000 a 100.000 por dia (13 a 16 horas comendo). Com feno à vontade, cai para 3.600 por hora e no máximo 32.000 por dia. Alimento mal triturado e pouco umedecido favorece a cólica.
Estômago pequeno, refeições pequenas
O cavalo não vomita: tudo o que entra no estômago segue adiante. E o estômago é pequeno, de 9 a 12 litros, comportando no máximo 0,4 a 0,5 kg de ração por 100 kg de peso por refeição. Para um cavalo de 400 kg, máximo de 2 kg — idealmente até 1,5 kg.
A digestão do concentrado exige muita energia: recomenda-se aguardar de 45 a 60 minutos por kg de ração antes de oferecer volumoso ou trabalhar o animal.
Intestino delgado e o limite do amido
Com 18 a 22 metros, o intestino delgado é longo e estreito. Alimento mal mastigado e fibras grosseiras (capim velho, feno fibroso) podem obstruí-lo, levando a cólica por impactação e favorecendo torções.
É aqui que o amido é digerido — mas o cavalo evoluiu com pasto de 2 a 4% de amido. As recomendações caíram ao longo do tempo: Potter (anos 1990) falava em 4 g/kg de peso vivo por refeição; o NRC (2007), 2 g; Martin-Rosset (2010), 1,1 g. Suagee-Bedore et al. (2020) observaram inflamação pós-prandial mesmo com 1,14 g/kg.
Saídas práticas: fracionar a ração (tenho bons resultados com 600 a 800 g por refeição, em 4 ou 5 refeições, com ração de alta qualidade), oferecer simbióticos diariamente para amenizar a disbiose ligada ao excesso de amido, ou dar 1 kg de feno uma hora antes da refeição de concentrado (Suagee-Bedore et al., 2020).
Intestino grosso: a câmara de fermentação
Ceco (até 70 litros) e cólon (até 130 litros) fazem a digestão microbiana, que pode levar de 24 a 48 horas. As flexuras, estreitamentos da parede intestinal, tornam a digestão eficiente, mas predispõem à cólica quando a fibra é de má qualidade.
Tudo o que mata a flora — antibioticoterapia prolongada, mudanças bruscas de alimento, estresse — compromete a digestão e leva à cólica. Grimm et al. (2016) viram alterações na microbiota e na digestibilidade até com a troca abrupta entre dois fenos semelhantes.
- Água: muito fria, tomada muito rápido (sobretudo após esforço), fornecida de forma irregular ou restrita.
- Concentrado: em excesso, ingerido rapidamente ou muito fermentável.
- Volumoso: velho, seco ou ligninoso, ou alfafa fresca à vontade, que pode gerar gases.
- Estresse e dor intensa: provocam estase intestinal e morte da microflora.
- Pica: ingestão de areia, terra, madeira ou borracha, ligada a verminose, desmineralização ou ração oferecida no chão.
10 dicas para prevenir cólicas
- Respeite os 4 preceitos do cavalo: presa, liberdade, gregário e forrageira de qualidade.
- Mantenha a saúde em dia, vermifugando com base em exame de fezes.
- Cuide da dentição: ela é a base da saúde digestiva.
- Cada categoria de animal tem exigências diferentes e precisa de manejo próprio.
- Refeições menores e mais frequentes são mais bem aproveitadas.
- Para cavalos estabulados, a última refeição do dia deve ser de volumoso; uma refeição noturna ajuda ainda mais.
- Troque a ração aos poucos: 1/3 nova por 5–7 dias, metade por 5–7 dias e 2/3 por mais 5–7 dias.
- Ajuste a energia da dieta ao trabalho: diminuiu o trabalho, diminui a energia.
- Priorize a qualidade do concentrado, não a quantidade.
- Adote o princípio "mínimo necessário, não máximo obrigatório".
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
