Sem radicalismos
Vivemos tempos de confronto: ou soltamos os animais, ou exigimos deles o máximo. Mas proibir os esportes e libertar os cavalos jamais fará bem a eles, porque hoje dependem plenamente dos cuidados humanos. A questão é: quais devem ser esses cuidados?
Considerar o bem-estar animal é um caminho sem volta, seja pela consciência dos bons profissionais, seja pela cobrança da sociedade. Precisamos cada vez mais de licença social, e o confronto "nós x eles" não beneficia ninguém.
Das Cinco Liberdades aos Cinco Domínios
As Cinco Liberdades (Brambell, 1965; FAWC, 1979) são difíceis de avaliar na prática por serem subjetivas. Mellor e Reid (1994, com atualizações até 2020) propuseram os Cinco Domínios — nutrição, ambiente físico, saúde, interações comportamentais e estado mental —, que permitem quantificar as condições do animal.
- Livre de fome e sede: oferecer o que o cavalo precisa conforme a fase da vida, sem deficiências nem excessos.
- Livre de desconforto: para o cavalo, conforto é estar perto de outros cavalos, com abrigo e relva para deitar.
- Livre de dor, maus-tratos e doenças: inclui as "ajudas" (esporas, chicotes, embocaduras pesadas), um bom tratador e o pronto atendimento veterinário.
- Livre de medo e estresse: companhia de outros cavalos e rotina diária de horários.
- Livre para expressar o comportamento natural: presa, gregário, liberdade e volumoso.
O que a ciência diz sobre o chicote
Evans e McGreevy (2011) observaram que mais uso do chicote não se associou a mais velocidade, e os cavalos atingiram as maiores velocidades sem chicote. Wilson, Jones e McGreevy (2018) não viram redução nos tempos de vitória. Thompson et al. (2020) não encontraram evidência de que o chicote melhore direção, segurança ou tempos finais.
Se não é necessário, por que manter? Se o assunto é bem-estar animal, importa o que é relevante para o cavalo.
Bem-estar também na rotina veterinária
Investir tempo em um manejo calmo e sem dor auxilia na recuperação dos animais em tratamento e previne acidentes. O cavalo tem memória excelente: se o cachimbo causa dor uma vez, o que ele vai esperar da próxima?
Quando profissionais acham normal cólicas, claudicações e lesões em potros iniciados cedo, há um problema profundo. Muitas vezes a questão não é quais animais vão se lesionar, mas quando.
Precocidade não é montar cedo
Um dos maiores desvios da realidade fisiológica é a ideia de precocidade como permissão para competir mais cedo. Precocidade está ligada à formação final do cavalo, aos 5 ou 6 anos. Um animal jamais deve ser montado antes dos 36 meses nem iniciado em competição antes dos 48 meses: o contrário causa lesões muitas vezes irreversíveis.
Propostas para provas equestres
As adequações devem passar pela educação de proprietários, tratadores, apresentadores, peões, treinadores, ginetes e veterinários, em um plano de no mínimo 10 anos, com cursos obrigatórios para competir, regras claras e fiscalização efetiva — inclusive com um selo de bem-estar na fazenda.
- Comitê de bem-estar com associações, veterinários e consultores independentes, e fiscal independente nos eventos.
- Código de conduta e programa de instrução obrigatório para competir.
- Limite de duas passadas por animal por dia de competição.
- Limitação de embocaduras conforme o tipo; proibição de chicotes, rédeas longas e esporas com rosetas de ponta.
- Proibição de treinar e montar após o término das competições durante o evento.
- Camas limpas, volumoso à vontade e água fresca e limpa em todas as baias.
Se você passar tempo com os animais, corre o risco de se tornar uma pessoa melhor.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
