Equilíbrio energético
O balanço energético é a relação entre a energia ingerida por meio dos alimentos e bebidas e a energia despendida pelo organismo para manter as funções vitais, processar nutrientes e realizar atividades físicas. Quando a ingestão energética é igual ao gasto energético, o indivíduo está em equilíbrio energético; quando a ingestão excede o gasto, ocorre balanço energético positivo; e quando o gasto excede a ingestão, ocorre balanço energético negativo.
O que é energia
Energia é a quantidade de calor produzida pela queima que eleva a temperatura de 1 g de água em 1 ºC, valor igual a uma caloria (cal). Em nutrição, usa-se a caloria necessária para elevar um quilograma de água, a quilocaloria (kcal).
Na nutrição dos cavalos usam-se a quilocaloria (kcal), a megacaloria (Mcal, igual a 1.000 kcal) ou os nutrientes digestíveis totais (NDT; 100% de NDT equivalem a 4,4 Mcal de energia digestível). Alguns autores, especialmente no Reino Unido, calculam a energia em joules (J); ao usar uma fórmula, deve-se atentar à unidade final e convertê-la para caloria, se necessário.
De maneira simples, todos os alimentos fornecem nutrientes com duas funções básicas: estrutural e energética. A estrutural é a constituição dos órgãos — do esqueleto aos músculos, pele e todos os sistemas —, construída desde a vida embrionária e renovada por toda a vida. A energética é a produção de ATP para o funcionamento do organismo.
Parafraseando Ribeiro e Rino (in Cintra, Alimentação Equina, 2016, cap. 2): a palavra-chave para o sucesso de qualquer organismo, humano ou animal, é energia. O modo como é produzida, armazenada e utilizada é o que torna os animais capazes de executar desde as tarefas mais simples até as mais habilidosas.
Ao montar a dieta do cavalo, deve-se pensar sempre em equilíbrio: suprir as necessidades, sem deficiências nem excessos. Balanço positivo pode levar a excesso de peso, obesidade, SME, laminite, desvios reprodutivos, lesões articulares e prejuízos no crescimento e na performance; balanço negativo, a perda de peso e aos mesmos prejuízos reprodutivos, articulares, de crescimento e de desempenho.
Nutrientes: proporção importa tanto quanto quantidade
O valor de um alimento está no seu teor de nutrientes, mas a importância de cada nutriente está também em oferecê-lo na proporção correta em relação aos outros. Os nutrientes não agem sozinhos: um depende do outro. Por exemplo, ao elevar a gordura da dieta em busca de mais energia, é fundamental um aporte adequado de vitaminas do complexo B, que participam do metabolismo das gorduras.
Calculada a necessidade nutricional do cavalo, é exatamente isso que deve ser oferecido, com um mínimo de excedente. Os cinco grandes grupos de nutrientes são todos fundamentais:
- Água
- Energéticos (lipídios e carboidratos)
- Proteicos (aminoácidos)
- Vitamínicos (lipo e hidrossolúveis)
- Minerais (macro e microminerais)
Nutrientes energéticos
Lipídios, carboidratos e proteínas fornecem energia e estão em todos os alimentos. A fonte primária de energia das células é a glicose, usada para produzir ATP.
Energia bruta por grama: lipídio 9,40 kcal/g; carboidrato 4,15 kcal/g; proteína 5,65 kcal/g. Lipídios e carboidratos terminam em CO₂ e água; a proteína gera também amônia.
Apesar de fornecer mais energia que os carboidratos, a proteína não é a fonte energética mais indicada: a amônia é convertida em ureia pelo fígado e eliminada pelos rins, um processo custoso. O ciclo da ureia gasta quatro ATP para excretar cada duas moléculas de amônia. Para a proteína ser fonte eficaz, a quantidade teria de ser muito elevada, aumentando a amônia, altamente tóxica.
Lipídios
Os lipídios são solúveis em éter e insolúveis em água, e compõem o extrato etéreo — daí a importância de avaliar esse parâmetro num alimento. Líquidos a 20 °C são chamados óleos; sólidos, gorduras. Na linguagem comum, óleos são de origem vegetal e gorduras, de origem animal. O óleo de palma, rico em gordura saturada e pobre em ômega-3, fica semissólido à temperatura ambiente.
São alimentos energéticos por terem alta energia bruta e gastarem pouca energia para serem digeridos, sobrando mais para o organismo. Aparecem como ácidos graxos saturados e insaturados (oleico, linoleico, linolênico, araquidônico). Os essenciais, como linoleico, linolênico e araquidônico, precisam vir da dieta.
O organismo usa ainda os ácidos graxos voláteis, de cadeia curta, produzidos pela microflora digestiva ao fermentar os carboidratos estruturais. Eles respondem por aproximadamente 30% da energia usada pelos equinos em manutenção.
Funções dos lipídios: fornecer energia; reserva energética; componentes das membranas celulares; precursores de hormônios, ácidos biliares, prostaglandinas, eicosanoides e leucotrienos; veículo das vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K); proteção e isolamento térmico. Em quantidades adequadas, são digeridos no intestino delgado, quase só por ação enzimática, e distribuídos pelos vasos linfáticos.
Carboidratos
Os carboidratos (glicídios) são compostos de carbono, hidrogênio e oxigênio, com fórmula básica (CH₂O)n. O nome glicídio vem do grego glukus, doce. A maior parte é absorvida no intestino; o excesso de glicose é armazenado como glicogênio no fígado e nos músculos — energia de pronta disponibilidade usada no início do esforço.
Classificam-se em monossacarídios (glicose, frutose, galactose, manose), dissacarídios (sacarose, maltose) e polissacarídios (amido, glicogênio, celulose, hemicelulose, lignina, inulina, pectina). Também se dividem em estruturais — celulose, hemicelulose, pectinas e lignina, que formam a fibra — e não estruturais, os açúcares e o amido.
Amido: o cavalo digere pouco
O amido é a reserva dos vegetais, presente em raízes, frutos, tubérculos e sementes. É digerido pela amilase pancreática até glicose, no estômago e no intestino delgado. Mas, como costumo dizer, o equino é "amilase pancreática incompetente": a enzima existe, mas sua atuação é restrita, e a capacidade de digerir amido depende diretamente da quantidade na refeição.
Até meados dos anos 2000, recomendava-se 4 g de amido por kg de peso por refeição (1,8 kg para um cavalo de 450 kg). O NRC (2007) reduziu para 2 g/kg. Martin-Rosset (2012) recomenda no máximo 1,1 g/kg — 330 g por refeição para 450 kg. A Profa. Roberta Brandi (USP, 2024) recomenda no máximo 1 g/kg, ou 300 g. Suagee-Bedore (2020) observou inflamação pós-prandial com 1,14 g/kg, o equivalente a 342 g.
Em dietas muito ricas em concentrado, ou com forrageiras muito novas, o amido pode exceder a capacidade da amilase, pois o alimento fica pouco tempo no estômago e no intestino delgado. Ele chega então ao ceco e ao cólon, onde sofre ação microbiana, com consequências desastrosas.
Fibras: energia, lastro e equilíbrio
Um mínimo de fibra é indispensável para assegurar higiene mental, efeito de lastro (a porção indigestível que garante a limpeza digestiva) e aporte energético. Cerca de 30% da energia disponível ao cavalo vem dos ácidos graxos voláteis da fermentação. Volumoso adequado em quantidade e qualidade também ajuda a evitar vícios e distúrbios comportamentais.
Para preservar o equilíbrio psicológico e neurovegetativo, o aporte mínimo de fibra é de cerca de 1,2% do peso vivo em matéria seca: 6 kg para um cavalo de 500 kg, ou 6,5 kg de feno de boa qualidade, ou 20 kg de capim fresco de boa qualidade. Isso ocupa o cavalo por mais tempo, aumenta a mastigação e a salivação e favorece o fluxo do alimento.
O efeito de lastro estimula o peristaltismo, evitando estase e cólicas, além de disbiose e autointoxicações.
Excessos de energia
O limite aceitável é de até 30% além das necessidades: um cavalo de 500 kg em manutenção que precisa de 16,5 Mcal de energia digestível por dia pode receber até 21,5 Mcal sem transtornos metabólicos. No Brasil ainda é comum elogiar cavalos acima do peso, mas a obesidade é extremamente prejudicial e pode vir de excesso de volumoso, concentrado ou suplementos.
O trabalho muscular depende de energia, e não de proteína. O crescimento ótimo em potros vem do equilíbrio entre nutrientes, e não do máximo de alimento, que pode predispor a doenças ortopédicas desenvolvimentares. Éguas e garanhões rendem melhor em escore corporal ótimo, não máximo.
Os excessos energéticos vêm, em geral, do exagero de grãos acima de 50% da dieta. Hoje não recomendamos concentrado acima de 40% da dieta, preferindo produtos de qualidade superior na menor quantidade possível. O excesso de energia favorece a disbiose, com riscos como timpanismo, diarreias, queda do tônus digestivo, dilatação do ceco, degeneração cardíaca, hepática e renal, e saponificação do magnésio pelo excesso de gordura, com problemas neurológicos e musculares.
É muito mais fácil, econômico e saudável buscar o equilíbrio: o alimento certo, na quantidade certa, para cada animal, priorizando sempre a qualidade, e não a quantidade.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
