Um mercado com cada vez mais opções
Em 2002 existiam quatro ou cinco empresas de suplementos para equinos; hoje são mais de 50. No setor de rações, já são mais de 80 empresas no Brasil. Algumas buscam espaço com qualidade, outras apenas com preço. Como saber qual a melhor? Todas as rações são iguais?
Se o proprietário ou veterinário fizer um trabalho real de nutrição, calculando as necessidades de cada animal e equilibrando com o volumoso, dois ou três produtos do tipo ração concentrada podem ser suficientes. É até possível trabalhar com um único tipo de ração, das éguas de cria aos cavalos de trabalho, variando as quantidades e complementando necessidades específicas — por exemplo, óleo para mais energia ou suplemento para potros.
O portfólio das empresas pode passar de 30 produtos por uma questão mercadológica. O consumidor ainda prefere a ração que agrada aos olhos, como as multicomponentes, que são mais caras e nem sempre mais eficientes; para o cavalo, uma ração peletizada com níveis adequados pode ser mais apropriada e mais barata. O grande portfólio é uma necessidade do mercado, e não do cavalo.
Critério 1: a aparência do produto
Embalagem: é o primeiro contato com o produto. Embalagens de baixa qualidade, com rótulos difíceis de ler, dificilmente conterão produto de alta qualidade. Devem estar intactas; rações enriquecidas com óleo pedem sacaria laminada ou plástica. Em suplementos, vitaminas se oxidam com a luz, por isso a embalagem não deve ser transparente e deve ser mantida em local seco e fresco.
Marca: tempo de mercado não é atestado de qualidade — há empresas novas com bons produtos e antigas sustentadas por marketing. Vale saber se há especialistas em nutrição de equinos por trás da empresa, e não apenas técnicos que extrapolam as necessidades dos bovinos para os cavalos. Equipe técnica a campo também é um bom indicativo, desde que bem preparada.
Preço: boa qualidade costuma ter preço alto, e é muito difícil produzir algo de alta qualidade muito abaixo da concorrência. O inverso não é verdadeiro: caro não significa excelente. Observe o gasto mensal por animal: rações com matérias-primas nobres são mais bem absorvidas e exigem menor quantidade. Em experiência pessoal, cavalos de enduro de 450 kg em provas de 40 a 60 km precisavam de apenas 2 a 3 kg diários de uma ração de alto valor biológico.
Produto: deve estar isento de contaminação, como fungos, e ter aparência uniforme. Para o cavalo, o que importa é odor, paladar e valor nutricional — por isso se usam palatabilizantes. O melaço torna a ração atrativa, mas não traz benefício ao equino e pode comprometer a saúde dos dentes.
Critério 2: o rótulo dos suplementos
A avaliação do rótulo é objetiva, científica e matemática. A indicação mostra para que o fabricante registrou o produto — um profissional capacitado pode indicá-lo para outra finalidade, conhecendo a função de cada nutriente. O modo de usar diz quanto o cavalo receberá por dia; algumas empresas recomendam doses muito pequenas para parecer mais baratas, sem atender ao animal.
O nível de garantia é avaliado em duas etapas: primeiro, quais nutrientes o produto contém; depois, a matemática — o nível por kg multiplicado pela dose recomendada. Em um suplemento mineral-vitamínico real, com dose de 50 g, a cobertura das necessidades de um cavalo de 500 kg em trabalho médio era de apenas 4% para cobre e 20 a 27% para cálcio, fósforo, magnésio, ferro e zinco, enquanto vitaminas D3 e B1 superavam 100%.
Os nutrientes em falta podem vir de outros alimentos; o problema maior está nos que sobram, pois também estarão em outros itens da dieta. Muitas empresas colocam nutrientes baratos em grande quantidade para impressionar, mas mais não significa melhor: a dieta deve suprir as necessidades sem deficiência nem excesso.
Critério 2: o rótulo das rações
As rações vão da farelada (pior opção) às extrusadas, passando pelas peletizadas (melhor custo-benefício) e multipartículas. Desde 2011, os níveis do rótulo são expressos em gramas por kg.
- Proteína bruta (mín.): 120 g/kg significa 12%. Uma ração de 15% tem 25% mais proteína que uma de 12%. Nunca valorize um produto pelo teor de proteína: ótimo é o que atende às necessidades.
- Extrato etéreo (mín.): indica o teor de gordura e a qualidade energética; quanto mais alto, provavelmente melhor a energia.
- Matéria fibrosa (máx.): fibra muito alta indica baixa digestibilidade; muito baixa pode predispor a cólicas. O ideal fica entre 90 e 130 g/kg.
- FDA (máx.): fibra pouco digestível; um mínimo de lignina é importante para o bom funcionamento digestivo.
- Matéria mineral (máx.): quanto mais alta, maior a indicação de matérias-primas de qualidade inferior.
- Energia digestível e NDT: não são obrigatórios nem fiscalizados; são garantidos apenas pelo fabricante.
Enriquecimento, composição e modo de usar
Como na ração sempre se oferece 1 kg ou mais por dia, multiplique o enriquecimento por kg pela quantidade diária. Em uma ração real com 4 kg/dia para um cavalo de 500 kg, cálcio, fósforo e vitamina D3 já superavam as necessidades — muitas vezes, nenhum suplemento é necessário na dieta total.
A composição básica também indica qualidade: aveia, farelo de soja, milho, cevada, farelo de linhaça e óleo são ingredientes mais nobres que farelo de algodão, arroz desengordurado e casca de aveia — mesmo com níveis de garantia equivalentes. Os eventuais substitutivos são uma garantia de que o produto manterá os níveis mesmo com oscilações de preço, e não sinal de que serão sempre usados.
Se o produto é de alta qualidade, a quantidade recomendada será relativamente pequena — nunca acima de 1,1 kg por 100 kg de peso vivo, dividida em ao menos duas ou três refeições. Acima de 1% do peso vivo em concentrado, aumenta a chance de cólicas; os estudos mais recentes favorecem dividir ainda mais e em menor quantidade.
Critério 3: a experimentação
Em última instância, a certeza de que um alimento funciona vem do teste. A experimentação científica, feita por universidade ou pesquisador isento, é um ótimo caminho, mas ocorre em condições específicas, nem sempre iguais às da prática. A experimentação por terceiros — formadores de opinião com bons animais — nem sempre segue critério técnico, e muitos são patrocinados.
A experimentação pessoal, bem-feita e isenta, é um forte indicativo. Antes, verifique o estado sanitário: desverminação, vacinação e arcada dentária. Avalie o estado físico, a atividade e a dieta básica; garanta volumoso adequado, água fresca e limpa à vontade e sal mineral específico. Para rações, respeite ao menos três semanas de adaptação; para suplementos, ofereça por 30 a 60 dias — mais tempo apenas em produtos para crescimento de potros.
Se não houver efeito, há duas conclusões possíveis: o produto não funciona, ou o animal não precisava dele. As necessidades são individuais: o que funciona para um cavalo pode não funcionar para outro.
As quatro perguntas antes de comprar
Nenhum critério deve ser usado isoladamente. Antes de escolher, responda: qual a real necessidade do meu cavalo? Ele precisa disso? A dieta básica está equilibrada? O manejo atende às necessidades do cavalo — e não do treinador, proprietário ou criador?
Ao otimizar a dieta de propriedades, o foco não é reduzir custos, e sim adequar os produtos certos, na quantidade certa, com manejo correto e fracionado. Muitas vezes, o resultado inclui redução de consumo, mesmo com produtos mais caros e mais adequados.
Preço alto não é sinônimo de qualidade, e preço baixo não é compatível com qualidade superior — mas o produto mais caro também pode não ser o mais indicado para seu cavalo.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
