Os 4 pilares que não mudaram
O cavalo atual é a representação mais eficiente de uma evolução de 55 milhões de anos. Há cerca de 25 milhões de anos, as florestas deram lugar às pradarias e o cavalo se adaptou: um único dedo tocando o solo, glândulas sudoríparas para dissipar calor, dentes para pasto de fibra longa e úmida, e uma dieta pobre em amido.
Daí os 4 pilares do comportamento equino — presa, liberdade, gregário e alimentação de fibra longa e alta umidade. Quando os três primeiros não são respeitados, o estresse provoca disbiose, compromete o aproveitamento dos alimentos e favorece a cólica.
Uma dieta de fibra longa, úmida e diversificada estimula uma microbiota variada, que favorece a resposta imune (90% da resposta imune se inicia no intestino), o peristaltismo e a proteção celular — 80 a 90% da serotonina do organismo vem da microbiota. Uma microbiota pobre ainda potencializa a ação de toxinas de alimentos contaminados.
O cavalo é um mau digestor de amido
Costumo dizer que o cavalo é um "incompetente" em amilase pancreática: não precisou de muito amido ao longo da evolução. As recomendações vêm caindo — de 3,5 a 4 g/kg de peso vivo por refeição (Potter, 1992) para 2 g (NRC, 2007), 1,1 g (Martin-Rosset, 2012) e no máximo 1 g (Profa. Roberta Brandi, USP).
Equino não é bovino
Muitas empresas do ramo bovino estão entrando no mercado equestre. Isso mostra expansão, mas é preciso ressaltar: o cavalo tem fisiologia digestiva radicalmente diferente.
O bovino é ruminante, com três pré-estômagos e um estômago verdadeiro, que somam 71% da capacidade digestiva. O rúmen converte fibra em proteína, permitindo ingerir fibra de baixa qualidade, e o alimento é mastigado duas vezes. Alimento de bovino serve para bovino.
No cavalo, o estômago tem 9% da capacidade, o intestino delgado 21% (até 22 m) e o intestino grosso 70%. A digestão do estômago e do delgado é essencialmente enzimática; a do intestino grosso é microbiana e depende de fibra de boa qualidade e diversidade.
O pH varia ao longo do trato: perto de 7,0 na boca, de 2,0 a 6,0 no estômago e de 6,0 a 7,0 nos intestinos. Dietas ricas em amido ou ácidas alteram esses valores e reduzem a diversidade da microbiota. O ideal são partículas grandes, acima de 15 cm, e alta umidade.
Não existe alimento completo para cavalo
Os nutrientes necessários ao cavalo somam cerca de 48: 21 minerais (14 essenciais), 14 vitaminas, 20 aminoácidos (10 essenciais), carboidratos e lipídeos. Ainda assim, há produtos que prometem mais de 70 nutrientes.
Aplico desde o início dos anos 2000: se não há uma boa razão para crer que o animal exige determinado nutriente, ou se a eficácia não foi comprovada, não o administre.
As chamadas rações completas prometem dispensar o feno. A ciência diz que podem atender à conta matemática; a arte da nutrição diz que, se eu fizer apenas isso, terei problemas. Gordura não é sinal de saúde.
Silagem, pré-secado e feno moído
O pré-secado bem feito pode ter vantagens, mas no Brasil é raro encontrar quem saiba produzi-lo. Um bom pré-secado tem cor homogênea, sem manchas escuras ou brancas, cheiro agradável e está frio ao ser aberto. Já houve casos no interior de São Paulo e do Rio Grande do Sul de pré-secado contaminado por Clostridium botulinum.
Na boca, pH abaixo de 6,7 já começa a afetar os dentes. Como pode uma silagem com pH perto de 3,8, feita de gramínea triturada, ser adequada? Se for de milho, rica em amido, compromete ainda mais a saúde digestiva.
Feno moído reidratado, misturado à ração, elimina a mastigação. Pode servir para bovinos, mas não para cavalos.
Micotoxinas e ionóforos
Contaminações por fumonisina (do fungo Fusarium, causadora da leucoencefalomalácia) e aflatoxinas (do Aspergillus) são frequentes em concentrados e volumosos, pela umidade na produção ou no armazenamento. "Meu gado comeu e não aconteceu nada" não vale: o limite do MAPA para fumonisina é de 5 ppm para equinos e 60 ppm para bovinos; para aflatoxina, 10 ppb e 50 ppb.
Monensina, lasalocida e salinomicina, usadas para bovinos, aves e suínos, são particularmente tóxicas aos equinos: interferem na passagem de íons, sobretudo cálcio, pelas membranas, afetando coração e músculos. Após acidentes nos anos 1980 e 1990, as boas empresas passaram a ter linha de produção exclusiva para cavalos.
O caso da crotalária
Em um caso recente, uma ração foi interditada pelo MAPA após uso de matéria-prima contaminada por crotalária, planta usada na adubação verde e altamente tóxica. Muitos testaram para monensina, deu negativo e seguiram oferecendo o produto — e os cavalos continuaram morrendo semanas depois, característica do alcaloide.
Mais de dois meses depois, o Prof. Dr. Danillo Pimentel (UFAL) levantou e confirmou a hipótese de intoxicação por monocrotalina, que causa danos graves a fígado, rins e cérebro. Segundo dados oficiais, cerca de 340 óbitos; levantamentos não oficiais passam de 1.300.
Como se proteger
Preço alto não garante qualidade, mas preço baixo é um risco muito grande. Ração é alimento, volumoso é alimento e suplemento não é fórmula mágica: tudo precisa ser avaliado em qualidade e quantidade.
- Conheça a empresa, sua fábrica e o registro dela e dos produtos no MAPA.
- Se a empresa não tem linha exclusiva para equinos, pergunte como limpa os equipamentos.
- Observe embalagem, aspecto, cheiro, presença de fungos e se o caminhão chegou enlonado.
- Na dúvida, descarte o saco, o fardo ou a bola inteira: o prejuízo é menor que a vida do animal.
- Ao notar problema em um produto, abra um chamado na ouvidoria do Ministério da Agricultura o quanto antes.
Criar cavalos não é complicado. O ser humano complica. Criar cavalos é simples desde que se respeite suas necessidades básicas.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
