O que é um cavalo idoso
Fisiologicamente, o cavalo já apresenta diminuição da capacidade de seus órgãos a partir dos 15 anos. Se nutrido adequadamente, pode ter vida útil no esporte até os 22 ou 23 anos e na reprodução até o fim da vida, que pode se dar acima dos 30 anos, dependendo do porte e da raça.
Entretanto, temos observado animais fisiologicamente "velhos" muito jovens, com condição corporal desgastada devido ao uso excessivo, à antecipação da doma e ao treinamento intensivo sem respeitar a adaptabilidade de suas estruturas, e ainda por uma alimentação inadequada por toda a vida. O contrário também se observa: cavalos com data de nascimento antiga e aparência de novo.
Uma alimentação equilibrada por toda a vida do animal, aliada ao manejo e ao treinamento corretos, permite usufruir do cavalo praticamente até o fim de sua vida, em equitação ou reprodução.
Sinais visíveis do envelhecimento
Visualmente, alguns sinais indicam o avanço da idade e devem orientar a revisão do manejo e da dieta.
- Branqueamento dos pelos ao redor dos olhos, têmporas e narinas.
- Aumento do afundamento dos sulcos acima dos olhos.
- Maior arqueamento do dorso.
- Aumento da proeminência da coluna vertebral.
- Queda do lábio inferior.
- Alterações dentárias, como perda da conformação da mesa dentária e arcada mais proeminente.
As mudanças fisiológicas profundas
Além das alterações visuais, ocorrem mudanças fisiológicas profundas no organismo. O envelhecimento debilita e compromete irreversivelmente os órgãos, afetando a absorção de nutrientes e modificando as necessidades nutricionais do animal, que passa a necessitar de nutrientes de melhor capacidade de absorção.
O cavalo idoso deve receber uma alimentação diferenciada, com dieta altamente palatável, concentrada e de fácil digestão, de forma que receba, em pequenas porções de alimento, grande quantidade de nutrientes, equilibradamente com todos os grupos de nutrientes.
Em animais jovens há uma reserva muito grande de nutrientes, de até três vezes a necessidade diária, o que torna o animal facilmente adaptável a condições adversas. Seus órgãos utilizam apenas 25% do potencial, mantendo reserva além das necessidades. Manter o animal em estresse permanente ou recorrente e em desequilíbrio nutricional prolongado compromete a longevidade: ele envelhece mais rapidamente, esgotando essas reservas.
Ocorrem ainda alterações de comportamento e atitudes, perda de memória, apatia, indiferença ao ambiente e depressão mental por deterioração do sistema nervoso. O animal fica mais sujeito à desidratação, pois há diminuição da sede, que reduz também o apetite e altera as preferências alimentares. Olfato e paladar perdem capacidade de identificar os alimentos, o que pode levar a inapetência e possivelmente intoxicações alimentares.
- Apetite diminuído, aumentando a necessidade de alimentos altamente digeríveis.
- Faculdades digestivas e metabólicas reduzidas ou perturbadas.
- Catabolismo que se sobrepõe ao anabolismo: o animal passa a destruir tecidos em vez de produzi-los.
- Reservas corpóreas que se esgotam.
- Desequilíbrios hormonais, como excesso de corticoides que comprometem a recuperação.
- Imunidade diminuída, predispondo a complicações infecciosas.
Dentes, estômago e intestino no idoso
O desgaste excessivo dos dentes compromete a mastigação e a trituração adequada dos alimentos, prejudicando a absorção de nutrientes, e pode propiciar quadros de cólica se a alimentação for grosseira. A queda das secreções salivares compromete o umedecimento dos alimentos, afetando consideravelmente o trânsito intestinal.
A redução da produção de ácido clorídrico limita a queda do pH gástrico, comprometendo a digestibilidade do cálcio e a pré-digestão de proteínas. A diminuição de secreções enzimáticas aumenta os riscos de dismicrobismo, pois a digestão de proteínas, glicídios e lipídeos em nível intestinal está comprometida.
A diminuição do tônus da musculatura lisa do intestino delgado favorece obstruções quando o animal se alimenta de forrageiras grosseiras, mal trituradas pelo desgaste dentário, predispondo à síndrome cólica e ao dismicrobismo.
Fígado, rins e sistema cardiorrespiratório
O desgaste natural do fígado, órgão responsável pela desintoxicação, torna o animal mais sujeito a intoxicações exógenas e endógenas. Em dietas ricas em proteína, por exemplo, aumentam os riscos de endotoxemias pelo excesso de amina. Ficam comprometidas também a glicemia e a ressintetização de aminoácidos: muitos aminoácidos que antes não eram essenciais passam a ser, obrigando a suplementação extra de aminoácidos, e não de proteína. As reservas de oligoelementos e vitaminas lipossolúveis também ficam comprometidas, tornando o organismo mais dependente do fornecimento pela dieta.
Nos rins, o animal passa a ter insuficiência renal crônica, que leva a problemas de mineralização óssea, com perdas de vitamina D e retenção de fósforo. Há diminuição da excreção de dejetos proteicos, agravando o quadro fisiológico e podendo agravar o quadro cerebral, com torpor, diminuição do dinamismo e depressão. Redobre o cuidado com dietas ricas em proteína.
No sistema cardiorrespiratório ocorre hipoventilação respiratória como sequela de gripe, bronquite e enfisema crônico, reforçada pela atonia dos músculos respiratórios, reduzindo a eficácia da captação de oxigênio. As cardiopatias levam à fadiga do miocárdio e à alteração das válvulas, agravadas por insuficiências respiratórias, renais e hepáticas.
Entre as alterações hormonais, destacam-se a redução de hormônios sexuais, insulínicos e somatotropínicos. A queda dos sexuais reduz libido e função reprodutiva; a diminuição da insulina propicia intolerância metabólica aos glicídios e favorece pré-diabetes ou diabetes crônica; a falta dos somatotropínicos compromete o anabolismo, especialmente a proteossíntese, alterando produção enzimática, osteogênese, desenvolvimento muscular e imunidade.
Como adaptar a dieta: fibra, energia e proteína
Equilíbrio é sempre a temática principal quando se fala em alimentação do cavalo. No idoso isso se torna primordial, mas deve ser feito de forma diferente do que se fez nos anos anteriores, quando a capacidade de aproveitamento e absorção de nutrientes era muito maior. O objetivo não é combater o envelhecimento, pois este é inevitável: o que se busca é adaptar a dieta às alterações fisiopatológicas para que sejam atenuadas e se possa retardar o envelhecimento. Quanto mais cedo se fizer essa adaptação, mais eficaz será seu efeito.
A quantidade de fibra bruta gira em torno de 20 a 24% da matéria seca, o que propicia alta concentração de nutrientes na dieta; valores superiores podem comprometer a digestibilidade. Devem-se buscar fibras tenras e emolientes, para manter as fezes com boa consistência, preferencialmente volumosos frescos no ponto ideal de corte, ou pouco menos. Se for utilizar feno, que seja de ótima qualidade. Evite pastagens, capineiras e fenos grosseiros, além do ponto de corte. O uso de probióticos e prebióticos favorece a absorção e a disponibilidade de nutrientes das fibras.
A quantidade de energia do idoso deve ser ligeiramente mais elevada que no animal jovem, preferencialmente de fontes lipídicas, como os óleos, de grande palatabilidade e ricos em ácidos graxos essenciais. Há maior necessidade de ômega 3, com ação anti-inflamatória, hipoalergisante e imunoestimulante, que pode ser obtida através de linhaça (farinha ou óleo) ou de subprodutos do arroz (farelo de arroz gordo ou óleo).
As necessidades proteicas da dieta total giram em torno de 11 a 13% de proteína bruta. É mais interessante, porém, preocupar-se com a qualidade dos aminoácidos — lisina, metionina, arginina, leucina, isoleucina, valina e outros — que, pela dificuldade do organismo de disponibilizá-los, podem tornar-se essenciais. Altos valores proteicos, se já eram prejudiciais ao animal jovem, aqui se tornam um perigo real e maior, devido às deficiências orgânicas do idoso. Uma suplementação extra de complexo de aminoácidos pode ser interessante.
Minerais e vitaminas
A relação cálcio/fósforo deve ser entre 1,5 e 2:1. Há cuidados especiais com o fornecimento de sódio e potássio, limitando-se o uso do primeiro a fim de favorecer a função renal, reduzir a hipervolemia e a hipertensão arterial e manter a atividade cardíaca. O magnésio tem papel antiestressante e normocalcêmico, além de favorecer a proteossíntese junto com o zinco e a vitamina A. A suplementação com microminerais torna-se fundamental, pela menor estocagem hepática, pela perda renal crescente e por suas funções preventivas em distúrbios como anemia (ferro e cobre), osteodistrofia e artroses (cobre e zinco) e quedas de imunidade (zinco e selênio).
As necessidades são mais elevadas de todas as vitaminas: a vitamina A está menos estocada pelo fígado, a vitamina D é pouco convertida em seus metabólitos ativos e a vitamina E, que exerce forte proteção contra peróxidos, está menos biodisponível. A vitamina K e as vitaminas do complexo B são menos sintetizadas pela microflora digestiva; é interessante oferecer suplementação em vitamina B6, ácido fólico e vitamina B12, pelas ações antianêmicas e neuroestimulantes. A levedura de cerveja seca é fonte rica e palatável de vitaminas B. A vitamina C, antes dispensável por ser integralmente metabolizada, pode ser necessária pela ação na osteoporose senil e pelas consequências metabólicas do estresse.
As necessidades quantitativas de cada nutriente dependem da atividade do animal e da categoria — trabalho, reprodução ou manutenção —, além da idade. Se o animal continuar competindo, devem ser calculadas as necessidades de um animal de esporte; se for égua em reprodução, calcula-se para a fase correspondente; se estiver em merecido descanso, calculam-se as necessidades de manutenção, sempre buscando a melhor qualidade nutricional possível.
Lembre-se apenas de que a alimentação é apenas um dos fatores. O respeito ao manejo e ao treinamento adequados por toda a vida é fundamental. A adaptação pode ser potencializada por fatores pró-digestivos: rações de melhor qualidade de absorção, diversas refeições ao longo do dia, atenção à qualidade dos dentes e uso de probióticos e prebióticos.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
