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Protocolos · 8 min de leitura

Potro órfão: como alimentar, quanto leite dar e por que o mito não se sustenta

Colostro nas primeiras 18 horas, ama de leite ou sucedâneo, e o cálculo de 20% do peso em leite — o roteiro completo de um manejo que funciona.

por André G. Cintra · MV, Prof. Esp.

O mito do potro órfão

Um dos grandes mitos da criação de cavalos é que potro órfão "não vai para frente". Esse mito decorre do desconhecimento do que é uma boa alimentação para o potro e de como ele deve ser manejado adequadamente desde o final da gestação.

O nascimento pode ser natural ou traumático, dependendo das condições da mãe e do ambiente. Uma égua magra demais provavelmente produzirá um potro frágil. Uma égua com excesso de peso terá dificuldade no parto, pelo estreitamento do canal pélvico pela gordura, provocando anóxia no recém-nascido. Além disso, tanto a égua obesa quanto a magra têm produção leiteira prejudicada — a primeira por acúmulo de gordura na glândula mamária, a segunda por deficiência nutricional.

As primeiras 18 horas: colostro

Na primeira fase, do nascimento até as 18 horas pós-parto, alguns cuidados são fundamentais para a sobrevivência. O potro deve ser limpo pela égua e tentar levantar sozinho, o que faz nos primeiros minutos. Como a maioria dos partos acontece durante a noite, ao amanhecer ele já deve estar de pé e mamando o colostro.

O colostro é um leite riquíssimo em anticorpos, e o aparelho digestivo do potro é permeável à absorção desses anticorpos apenas até 18 horas após o nascimento. Depois disso, a permeabilidade diminui consideravelmente e o leite materno também perde suas qualidades imunológicas.

Nos casos de óbito da mãe no parto, deve-se providenciar, para administração imediata, colostro de outra égua — que pode ser congelado e reaquecido no momento do fornecimento. Se a propriedade não tiver esse colostro, deve-se procurar outro haras com banco de colostro. Existe ainda a possibilidade de administração de plasma sanguíneo, obtido em centrais específicas.

Ama de leite: como fazer a égua aceitar

Do terço final da gestação até o 3º mês de vida, o potro se alimenta exclusivamente através da mãe: na gestação pelos nutrientes recebidos via sanguínea e, no início da lactação, pelo leite. Até o 3º mês, seu aparelho digestivo e sua dentição não estão aptos a receber e processar alimentos grosseiros — qualquer alimento que não seja leite serve mais como adaptação do que como fonte de nutrientes. Por isso, para potros órfãos antes do 3º mês, a alimentação láctea é imprescindível.

A melhor alternativa é a ama de leite: éguas recém-paridas que podem adotar o potro órfão. Elas geralmente aceitam bem. Para isso, é preciso que o potro cheire como a égua, ao menos no início da "apresentação": pode-se recobri-lo com fezes, urina, leite, suor ou mesmo fluidos placentários da égua adotiva. A maioria aceita o potro em 24 horas.

Sucedâneo: a receita e a quantidade

Caso não seja possível utilizar uma ama de leite, podem-se usar sucedâneos do leite de égua com leite de vaca ou de cabra, diluindo duas partes de leite para uma parte de água e adicionando dextrose, cerca de 2%. O leite de vaca tem valor mais elevado de gordura e menor teor de proteína, daí a necessidade dessa mistura. Pode ser oferecido em mamadeira ou em balde, sendo que a maioria dos potros pega bem o balde, facilitando muito o manejo.

Deve-se oferecer uma quantidade próxima daquela que a mãe estaria ofertando: 18 a 20 litros para potros de raças leves e 23 a 28 litros para raças pesadas, iniciando-se com 14 litros ao nascimento e adicionando 1 litro por semana até a quantidade necessária, de 20% do peso do potro em leite.

Nas duas primeiras semanas, oferecer a cada 4 horas, dia e noite. Após esse período, pode-se dividir o total pelo período diurno, entre 6 da manhã e 8 da noite, até os 6 a 7 meses, quando o animal será desmamado. Alguns animais podem recusar o aleitamento artificial a partir dos 4,5 meses, devendo então ser suplementados com alimentos sólidos adequados para a idade.

Curva de crescimento: o que esperar

Nas raças leves, o peso ao nascimento representa 9 a 10% do peso da égua e dobra em pouco mais de um mês, triplicando aos 90 dias se a égua estiver recebendo alimentação adequada para ótima produção leiteira.

Durante o primeiro mês, o ganho de peso médio ótimo é ao redor de 1.500 g por dia, podendo atingir 1.800 g em indivíduos muito grandes; fica entre 1.200 e 1.300 g no 2º mês e ao redor de 750 g aos 6 meses, com variações conforme a raça. Ao nascer, o potro já tem cerca de 60-70% da altura de cernelha de um adulto, alcançando 95% da altura máxima aos 24 meses e o crescimento final máximo aos 60 meses.

A criação de um potro visa produzir um animal muito bem desenvolvido, sobretudo em estrutura óssea e muscular, sem acúmulo de gorduras de reserva: procuramos um crescimento ótimo, não máximo como em um animal de abate. Toda carência ou desequilíbrio da dieta acarreta um atraso ou mesmo uma situação irreversível no desenvolvimento.

Transição para o sólido, desmame e convivência

A partir do 3º mês de vida já se inicia o aproveitamento de nutrientes de alimentação mais grosseira e fibrosa. Deixe sempre volumoso e concentrado disponíveis para que o potro se adapte gradualmente aos alimentos sólidos. O não fornecimento de alimentação adequada ao potro órfão em qualquer momento nos 12 primeiros meses de vida compromete, em geral em definitivo, seu crescimento e desenvolvimento.

A partir do 4º mês, dependendo do estado geral do animal e de sua adaptação à alimentação sólida, pode-se iniciar o desmame reduzindo o leite 25% a cada semana, de forma que em 4 semanas o potro esteja totalmente desmamado. Muitas vezes, após as duas primeiras semanas, os potros já preferem a alimentação sólida e rejeitam o leite, quando se pode cessar por completo o fornecimento.

Um procedimento muito importante para o futuro do potro é sua convivência com outros equinos desde os primeiros momentos. É fundamental para a boa integridade física e mental que ele tenha como referência outros da mesma espécie: são eles que vão ensinar ao jovem órfão o que comer, como se defender e o que é ser um cavalo.

São estes que vão ensinar ao jovem órfão o que comer, como se defender e o que é ser um cavalo.

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Autoria e créditos

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.

Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).

Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra

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