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Performance · 13 min de leitura

Alimentação natural para cavalos de marcha: ciência, manejo e o que realmente suplementar

Da posição do cocho ao limite de 400 g de ração por 100 kg de peso por refeição — o manejo que faz a nutrição funcionar.

por André G. Cintra · MV, Prof. Esp.

Ciência e arte: por que as duas são necessárias

Segundo Harris et al. (2006), a alimentação ideal para os equinos é a somatória da ciência e da arte. A ciência nos provê informações e conclusões de pesquisas, fundamentais para compreender os processos digestivos e metabólicos da espécie, oferecendo dados sobre as exigências nutricionais de cada categoria — manutenção, reprodução, crescimento e trabalho.

A arte é a habilidade de converter essa teoria em prática, avaliando o cavalo individualmente, suas necessidades e gostos, e ajustando o manejo ao mais natural possível da espécie.

Um dos grandes entraves de usar a ciência pura e simples, ainda segundo Harris et al., é que a maioria da pesquisa nutricional em cavalos foi realizada em relativamente poucos animais e se concentrou nos efeitos de alterações de curto prazo na ingestão e possíveis alterações de digestibilidade. Assim, a arte de individualizar dietas se torna fundamental — afinal, não existe boa nutrição sem um manejo adequado.

Ao direcionar a oferta de alimentos por esses princípios, o resultado é melhor performance e, de forma extremamente importante, a prevenção de distúrbios nutricionais que vão de cólicas a enfermidades clínicas leves ou graves decorrentes de desequilíbrios em aminoácidos, minerais e energéticos.

As quatro bases do comportamento a respeitar

Essa base é fundamentada em quatro preceitos, que precisam ser respeitados para que se tenha o manejo correto diário e se potencialize o resultado nutricional.

  • São presas: manusear um cavalo com brutalidade leva a estado de estresse, que compromete a capacidade de aproveitar plenamente os alimentos ofertados.
  • Necessitam de liberdade: o ideal é ficar solto 24 h/dia; quando não é possível, ao menos 2 a 3 horas em redondel ou piquete, mesmo em dias de trabalho.
  • Necessitam de companhia: o sono reparador só ocorre na presença física ou visual de outros cavalos — uma presa só repousa adequadamente quando há outro indivíduo em vigília.
  • Alimentação baseada em forrageiras: deve constituir ao menos metade da dieta diária e ser composta por fibras longas, que estimulam adequadamente mastigação e salivação.

Boca, saliva e a altura do cocho

A mastigação do cavalo deve ser eficiente, de forma que o alimento seja bem triturado e possa passar pelos processos físicos e químicos da digestão adequadamente. Os dentes do cavalo são hipsodontes, isto é, erupcionam durante toda a vida a uma taxa de 2 a 8 mm por ano. A alimentação adequada favorece o desgaste desejável e equilibrado do dente, minimizando os problemas dentários tão comuns hoje, decorrentes da alimentação não natural a que submetemos os animais.

Uma boa dentição favorece a mastigação adequada, que estimula melhor salivação. As funções da saliva incluem neutralizar os efeitos maléficos do ácido clorídrico na mucosa gástrica, prevenindo gastrites e úlceras, e umedecer o alimento para a melhor formação do bolo alimentar, permitindo melhor ação das enzimas e da microbiota.

A salivação também é estimulada pela posição da cabeça durante a alimentação. O ideal é que o cavalo se alimente sempre na altura do chão, pois isso favorece a irrigação sanguínea das glândulas salivares. Ou seja: o uso de cochos na altura do peito ou de fenil acima do cocho é totalmente contraindicado para o bom processo digestório.

Do estômago pequeno à microbiota do intestino grosso

Na questão anátomo-fisiológica, devemos destacar o pequeno estômago, que limita a quantidade de ração a ser ofertada, um intestino delgado longo e enovelado e um intestino grosso cuja função principal é fermentar as fibras longas do alimento.

Essa fermentação é realizada pela microbiota intestinal, presente por todo o aparelho digestório: desde o estômago, especialmente lactobacilos, e o intestino delgado, com cerca de 10% da população microbiana, até o ceco e o cólon, que contêm 90% dessa microbiota.

A microbiota é responsável também pela nutrição da mucosa intestinal, onde é produzida 90% da serotonina utilizada pelo animal. Além disso, de 80 a 90% da resposta imune de um indivíduo é potencializada pela saúde dessa mucosa. Ofertar alimentos que alimentem essa microbiota, além de fornecer nutrientes para o desempenho, favorece o estado de saúde físico e mental, pois a serotonina é precursora da melatonina, que atua em nível cerebral deixando o animal em estado de repouso mais tranquilo.

Fibra longa: pastagem diversificada e capineira no ponto

Como o cavalo é herbívoro, sua alimentação natural é composta por forrageiras, complementada por sal mineral específico para equinos, água fresca e limpa à vontade. Para melhor desempenho nas diversas categorias, podemos incrementar a dieta com rações concentradas e suplementos.

O volumoso ideal é a pastagem, pois é composta de fibra longa, com alta umidade, e o animal come de cabeça baixa. Entretanto, ao contrário do que o homem tem feito nas últimas décadas ao implantar pastagem de espécie única, o ideal é que os piquetes contenham várias espécies: além de favorecer a diversidade da microbiota, que é alimento-específica, disponibiliza uma gama muito mais diversificada de nutrientes. Quanto mais diversificada for a pastagem, menos suplementação o animal deve necessitar.

Como volumosos, podemos ainda utilizar as capineiras, que podem ser de capim-elefante, usadas com o máximo de cuidado na altura de corte — ideal entre 1,60 m e 2,40 m do solo — e sempre ofertadas integrais, para melhorar mastigação, salivação e trânsito intestinal, evitando capineiras velhas, ricas em lignina, indigestível para o cavalo. Além disso, pode-se utilizar formas de armazenamento como haylage, pré-secado ou feno. Alternativas como silagem devem ser evitadas por períodos superiores a 60 dias, pois podem trazer inconvenientes à saúde do cavalo, além de serem relativamente pobres em nutrientes.

Formação do atleta e limites do concentrado

Para o bom desempenho, devemos respeitar o equilíbrio físico e mental do cavalo. O equilíbrio físico é conseguido pelo bom uso da ciência, buscando os cálculos para a oferta ideal de nutrientes; o equilíbrio mental se faz pelo bom uso da arte de ofertar e manejar.

A formação de um atleta se inicia desde potro, sendo fundamental o período a partir do terço final da gestação, passando por toda a lactação até o mínimo de 12 meses de idade. Ou seja: a alimentação do potro passa pelos cuidados com a égua gestante e lactante, pois nutrir a égua nessa fase é nutrir o potro. O cavalo adulto está pronto para ser domado a partir dos 36 meses, de forma paulatina e gradual, iniciando o treinamento a partir dos 42 a 48 meses. Infelizmente, antecipa-se muito a doma e o treinamento, com consequências desastrosas para a integridade muscular, tendínea e óssea.

No caso de animais atletas, é muito complexo conseguir bom desempenho sem o uso de rações concentradas e, eventualmente, alguns suplementos. A ração deve complementar as necessidades conforme o tipo de volumoso disponível, e deve compor no máximo 50% da dieta ou 1% do peso vivo, isto é, nunca mais de 1 kg de ração para cada 100 kg de peso, sob pena de colocar em risco a vida e a própria performance do animal.

É muito comum o uso de matérias-primas para baratear o custo diário, como aveia, milho, soja ou trigo. Devemos ter muito cuidado com isso, pois são ricas em amido, que favorece problemas de desordem fisiológica, e desequilibradas em minerais, podendo comprometer o desempenho e a saúde do animal.

  • Nunca ultrapasse 400 g de ração para cada 100 kg de peso por refeição — máximo de 1,6 kg por refeição para um cavalo de 400 kg; se precisar de mais, divida em várias vezes ao dia.
  • Aguarde mínimo de 45 minutos após a oferta de volumoso para ofertar a ração, e nunca misture ração e volumoso no fornecimento.
  • Aguarde 45 minutos por kg de ração para, em seguida, fornecer o volumoso: 1,6 kg pede cerca de 70 minutos.
  • Aguarde 45 minutos por kg de ração também para exercitar o cavalo, pois exercício e digestão competem por energia.

Suplementos: quando o animal necessitar

Chegamos ao uso de suplementos, uma infinidade de produtos que prometem de tudo um pouco. Entretanto, nem tudo funciona e propicia realmente melhora na performance. Para saber o que utilizar, primeiro devemos equilibrar a dieta básica, em geral muito desequilibrada. Depois, conforme o manejo, saberemos se realmente há necessidade de algum suplemento. A forma correta de usar qualquer suplemento é: quando o animal necessitar. Lembre-se de que os excessos podem ser tão prejudiciais quanto as deficiências.

Alguns suplementos, como a creatina, segundo Martin-Rosset (2012), não possuem nenhum efeito no equino, ao contrário do que ocorre em seres humanos. Outros, como a lisina, aminoácido essencial, são fundamentais, mas encontrados em quantidade adequada em dieta equilibrada e diversificada; o excesso de lisina pode comprometer a absorção de outros aminoácidos. Da mesma forma, o uso indiscriminado de suplementos minerais de poucos minerais pode causar a chamada carência induzida, em que o excesso de um elemento, por exemplo ferro, causa deficiência de outros, como zinco e cobre.

Muitas vezes observamos ação benéfica de um produto muito mais relacionada a erros de manejo e ao desequilíbrio da dieta básica do que propriamente à necessidade do animal. Devemos sempre considerar variações individuais: diferenças entre raças, entre indivíduos da mesma raça, temperamento, digestibilidade individual, clima, condições de instalações e até o estado do animal ao iniciar o fornecimento. Para o melhor resultado, o uso de fórmulas estáveis, que variem o menos possível o ano todo, e de alimentos de qualidade é fundamental. O auxílio de um técnico especializado é importante, pois ele saberá avaliar as necessidades reais conforme raça, idade, peso, esforço, tipo de forrageira e objetivo fixado.

  • Probióticos, prebióticos e simbióticos: podem ser usados diariamente, pois cavalos de esporte são submetidos a estresse constante, seja pelo manejo, treinamento ou competições, minimizando os efeitos do estresse sobre a microbiota.
  • Óleos: fonte de energia de excelente qualidade, cada tipo com sua função; o excesso é prejudicial e rações para atletas já vêm com óleo incorporado.
  • Minerais: uso contínuo apenas do sal mineral específico para equinos; eletrolíticos após competições e treinamentos, sempre com livre acesso à água; elementos minerais isolados devem ser evitados.
  • Vitaminas: com forragem verde, sol diário e manejo que minimize o estresse, as necessidades são majoritariamente atendidas.
  • Aminoácidos: com dieta equilibrada e diversificada, as necessidades são atendidas; excessos podem causar carência induzida.
  • Outros suplementos: exigem avaliação criteriosa de efeito benéfico e adverso, que pode ocorrer por excesso ou por ineficácia.

Autoria e créditos

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.

Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).

Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra

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