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Manejo e alimentação de cavalos em eventos equestres: o que fazer antes, durante e depois

A preparação começa meses antes — e o maior inimigo do desempenho na pista é o estresse do confinamento.

por André G. Cintra · MV, Prof. Esp.

A preparação começa meses antes

O mundo equestre se desenvolve a cada dia com mais eventos para promover o cavalo e a raça, em exposições funcionais, eventos esportivos e, muitas vezes, exposições funcionais com provas equestres — o que exige ainda mais dos animais, tanto na preparação física e psíquica na fazenda como durante o evento.

A preparação deve começar meses antes, inicialmente para amenizar situações de estresse que ocorrem quando os equinos são mudados de ambiente. Como o cavalo é um animal que evoluiu em plena liberdade, o confinamento em baia para o preparo de exposição o afeta com estresse que tende a desencadear problemas como úlcera gástrica.

Isso está comprovado em estudo nos Estados Unidos, onde 100% dos animais que viviam a pasto desenvolveram úlcera nos primeiros 30 dias de confinamento. O mesmo estudo mostrou que, em hípicas e Jockey Clubs, mais de 80% também apresentavam úlceras gástricas — demonstrando que o manejo com confinamento excessivo pode comprometer a performance do animal.

Essas alterações se estendem pelo período da exposição ou competição, ambientes estressantes tanto para cavalos como para cavaleiros, ainda mais por ser um ambiente diferente e estranho, que exigiria certa adaptação, infelizmente impossível de ser observada.

Estresse custa alimento e desempenho

O estresse, além de muitos outros problemas fisiopatológicos, acarreta menor capacidade de absorção de nutrientes da alimentação, o que obriga o criador a fornecer maior quantidade de alimento para amenizar os problemas e manter a performance. Ou seja: animal sem estresse, ou com o mínimo de estresse possível, tem maior absorção de nutrientes com menor quantidade de alimento e, consequentemente, melhor estado de saúde e melhor desempenho.

Adequar o manejo do cavalo às suas necessidades de liberdade e, ao mesmo tempo, às necessidades do criador e competidor é o grande desafio da equinocultura mundial, de forma a conseguir alta performance, com custo adequado e saúde para o animal.

Soltar é diferente de trabalhar

A preparação, que quase obrigatoriamente passa pelo confinamento, pode ser amenizada soltando o animal de 2 a 4 horas por dia, em um ambiente onde haja tranquilidade e espaço para que ele se movimente conforme sua vontade.

Muitos acreditam que soltar o cavalo e ele ficar correndo no piquete ou redondel compromete a preparação, em razão do consumo de energia. Entretanto, os animais ficam galopando frequentemente no piquete quando são soltos após confinamento excessivo ou quando recebem alimentação muito energética e sentem necessidade de gastar parte dessa energia. Leia-se alimentação muito energética como aquela além das necessidades do animal — isto é, está sobrando, o que nunca é desejável do ponto de vista da saúde, e muito menos do desempenho.

Se dosada corretamente, essa liberdade ameniza as injúrias do estresse, favorecendo a absorção de nutrientes e melhorando o aproveitamento dos alimentos. Vale ressaltar: soltar é diferente de trabalhar. Soltar o animal é um trabalho psíquico, que ameniza os males do estresse; trabalhar é um trabalho físico, adequado para a performance esportiva. Rodar na guia é exercício físico, não mental. Claro que há dificuldade em soltar o animal durante um evento, mas esse é um período curto e pode ser amenizado de outra forma — durante a preparação, porém, a soltura é importante.

Soltar o animal é um trabalho psíquico, amenizando os males do estresse; trabalhar é um trabalho físico. Rodar na guia é exercício físico, não mental.

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Volumoso: adaptação e fracionamento

Outro fator fundamental é a valorização do volumoso de qualidade, preferencialmente alimento fresco ou feno de gramíneas semelhante ao que estará disponível durante o evento, pois o equino precisa de um longo tempo — três semanas a até dois meses — para se adaptar a um novo tipo de alimento. Leguminosas como alfafa podem ser utilizadas, mas com parcimônia, em razão dos elevados teores proteicos que podem comprometer a performance. O fornecimento de 1 a 2 kg de feno de alfafa por dia, complementando o volumoso de gramínea, pode favorecer a preparação, deixando os animais com pelame bonito e em bom estado de saúde.

O volumoso deve ser ofertado em quantidade adequada: mínimo de 50% do total de alimento, idealmente ao redor de 70 a 80%, sendo os demais 20 a 30% em concentrado e suplementos. O feno de gramíneas, o volumoso mais utilizado em competições, pode ser umedecido, imerso em água por 10 a 15 minutos antes do fornecimento.

Uma divisão prática: 25% do volumoso uma hora e meia após a ração da manhã, 25% uma hora e meia após a ração do meio-dia e 50% uma hora e meia após a última refeição da tarde, de forma que o animal tenha ocupação mastigatória durante a noite — fator de tranquilização. Lembre-se de que, evolutivamente, o cavalo se alimenta de 13 a 16 horas por dia; seu aparelho digestório está adaptado a uma digestão lenta e quase contínua, em pequenas porções por vez.

Concentrado: qualidade acima de quantidade

O fornecimento de concentrado de melhor qualidade, consequentemente mais caro, pode sair mais barato em razão do fornecimento em menor quantidade. Além de auxiliar na prevenção da síndrome cólica e de outros males dos excessos nutricionais, valoriza o alimento natural do cavalo — o volumoso que, por estimular a mastigação, ameniza as agruras do estresse, favorece o desgaste natural dos dentes e melhora a produção de saliva.

Concentrados altamente energéticos podem ser fornecidos na quantidade de 2 a 4 kg por dia para um animal de 500 kg, sendo 700 g a 1,3 kg por refeição. Quanto mais eu fracionar o feno e a ração concentrada, melhor o aproveitamento de ambos. O concentrado será ofertado idealmente em três a quatro refeições, e a quantidade por refeição nunca deve ultrapassar 0,4 kg para cada 100 kg de peso, isto é, 2 kg por refeição para um animal de 500 kg. Do ponto de vista da possibilidade de cólica, a literatura fala em até 500 g/100 kg de peso; do ponto de vista do aproveitamento fisiológico, algo ao redor de 250 a 300 g/100 kg de peso por refeição é ainda melhor.

O concentrado deve ter valores energéticos e proteicos adequados e equilibrados com o volumoso. Quanto pior for a qualidade do volumoso, melhor deverá ser a qualidade do concentrado; quanto melhor a qualidade do volumoso, menor poderá ser a quantidade de concentrado ofertada.

Suplementos que fazem diferença no evento

Dependendo da qualidade e disponibilidade do volumoso e do concentrado, o fornecimento de suplementos nutricionais pode ser interessante, especialmente alguns que auxiliam no preparo dos animais e outros que amenizam os problemas causados pelo estresse. A escolha passa pela avaliação individual do animal e dos alimentos disponíveis, feita por profissional competente.

Óleos de origem vegetal são excelentes fontes de energia, podendo ser utilizados em quantidades que variam de 50 ml a 400 ml por dia, dependendo do estado do animal, idade, atividade e, principalmente, do concentrado escolhido — pois rações de alta performance já possuem óleo em sua composição, e adicionar mais óleo pode comprometer o preparo. É quando mais é menos; ou, parafraseando Wolter (1994), "quando o melhor é pior que o bom". Em termos de quantidade de energia todos os óleos são semelhantes; se a busca for qualitativa, o óleo de linhaça extraído por processos físicos tem maior teor de ômega 3, e o óleo de arroz possui gama-orizanol, anabolizante natural que não causa doping.

O farelo de linhaça é outra opção bastante interessante, pois é fonte de fibras de excelente qualidade, aminoácidos e ômega 3. O fornecimento de 100 a 300 g diários favorece a saúde e o desempenho. Importante ressaltar que o uso de grão de linhaça, seco ou úmido, não é recomendado, pois pode liberar glicosídeos cianogênicos em contato com a água, o que traz problemas sérios à saúde do animal.

Microbiota: o fator que sustenta todo o resto

Manter a saúde do aparelho digestório do equino é fator fundamental para o bom desempenho. O equino evoluiu como herbívoro, e a forma mais eficiente que a natureza encontrou para otimizar o aproveitamento de um alimento de baixa qualidade como o volumoso foi a simbiose com bactérias e leveduras de alta capacidade fermentativa que digerem as fibras.

A microflora digestiva do cavalo é altamente específica quanto ao tipo de alimento, volumoso ou concentrado, podendo mudar em mais de 100 vezes durante um período de 24 horas, refletindo alterações do tipo de nutrientes que compõem a dieta. É fundamental evitar alterações constantes e bruscas na alimentação, que podem levar a distúrbios metabólicos e desordens digestivas.

O equilíbrio da saúde do equino passa pelo delicado equilíbrio dessa microflora, facilmente afetada pelas injúrias causadas pelo estresse. Manter essa microflora ativa é um grande desafio que favorece consideravelmente o desempenho, o que pode ser conseguido através de probióticos e prebióticos, ou de simbióticos — produtos que contenham probióticos mais prebióticos.

O probiótico atua como auxiliar contra os desequilíbrios da flora intestinal. Graças à sua ação biorreguladora, permite encobrir os desequilíbrios, preservando funções essenciais e a saúde do cavalo. O que se procura é melhorar a eficácia alimentar pelo aumento da atividade enzimática e da digestibilidade das fibras, com elevação das defesas imunitárias e diminuição da ação dos germes patogênicos. Os cavalos apresentam melhora do estado geral — aspecto do pelo, qualidade dos cascos — e, sobretudo, queda significativa dos problemas digestivos, limitando os efeitos das transições alimentares ou do estresse. Já o prebiótico são substâncias que otimizam a ação da microbiota natural e do probiótico: grosseiramente, prebióticos são alimentos para a microbiota.

Assim, a melhor receita para preparar animais e mantê-los de forma adequada durante os eventos passa pela valorização da mão de obra, fundamental na lida diária, por respeitar as necessidades do cavalo de liberdade e volumoso, por complementar com concentrado de ótima qualidade em quantidade adequada, dividido em ao menos três refeições diárias, e por complementar, conforme as necessidades, com vitaminas, minerais, aminoácidos e, principalmente, com simbiótico, farelo de linhaça e, eventualmente, óleos vegetais.

Autoria e créditos

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.

Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).

Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra

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