Equilíbrio, bioquímica e vitaminas
"Que o teu alimento seja o teu remédio", dizia Hipócrates. Na alimentação equina, o principal quesito é o equilíbrio: alimentos diversificados que ofertem os cinco grupos de nutrientes — água, energéticos, proteicos, minerais e vitaminas —, sem deficiências nem excessos. As vias bioquímicas do organismo só funcionam bem na presença de todos os nutrientes, especialmente das vitaminas, que atuam como cofatores de enzimas. Até comportamento e emoções têm consequências bioquímicas, e vice-versa.
O termo vitamina foi criado por Casimir Funk, em 1912 (vita + amina). Embora nem todas contenham amina, o nome permaneceu para designar substâncias com características em comum.
- Não produzem energia e não fazem parte da estrutura dos tecidos.
- Agem em pequenas quantidades (mg, mcg ou UI), com ação catalisadora no metabolismo.
- Têm ação específica: uma vitamina não substitui outra.
- São facilmente destruídas por ação química ou física — luz, calor, umidade e trituração.
- Lipossolúveis: A, D, E e K. Hidrossolúveis: complexo B e vitamina C.
Quando o cavalo precisa — e quando não precisa — de vitaminas
Com forragem verde de qualidade e exposição ao sol, provavelmente não é necessário adicionar vitaminas A, E e D para animais em manutenção: A e E estão nas pastagens e a D é convertida na pele pelos raios solares. Sem estresse, a flora digestiva produz o complexo B e a vitamina K, e o fígado produz a vitamina C.
Já o cavalo de baia alimentado com feno provavelmente precisará de suplementação: a cura ao sol reduz as vitaminas A e E do feno, e o estresse do confinamento e do isolamento compromete a produção de complexo B pela flora. Corridas, provas, exposições, animais nervosos, anêmicos, enfermos, em pós-cirúrgico ou em terapia prolongada com antimicrobianos orais também podem necessitar de aporte extra.
Na indústria, manter vitaminas estáveis em peletizados e extrusados é um desafio: calor, luz e minerais livres aceleram as perdas — com minerais livres, a perda de vitamina A chega a 29% em 60 dias, contra 3% em 15 dias com minerais quelatos. Por isso, os fabricantes costumam acrescentar muito mais do que o garantido no rótulo. Em casa, mantenha as embalagens de ração e suplementos sempre fechadas.
Vitamina A e betacaroteno
A vitamina A vem dos carotenos das forragens verdes, sobretudo o betacaroteno (1 mg equivale a 400 UI). Cerca de 50% do caroteno ingerido é convertido em vitamina A na mucosa intestinal e estocado no fígado; dietas pobres em gordura prejudicam sua absorção. Ela atua na síntese de proteína (em sinergia com o zinco), na formação óssea, na integridade das mucosas, na imunidade, na visão noturna e na reprodução.
O betacaroteno também tem ação própria nos ovários e no corpo-lúteo, mas os estudos sobre a eficácia do betacaroteno sintético na fertilidade das éguas são contraditórios; em 2022, Brigato et al. não observaram benefício da suplementação extra de betacaroteno, vitamina E e selênio.
Quanto mais verde o feno, mais provitamina A preservada; fenos muito secos ou armazenados por muito tempo podem exigir suplementação. As necessidades são bem inferiores ao que a maioria dos suplementos oferece: acima de cinco vezes a necessidade já pode causar queda de apetite e de crescimento, alopecia, anemia, fraqueza e ataxia. A deficiência causa lacrimejamento excessivo e cegueira noturna, entre outros sinais.
Vitamina D: sol basta, excesso intoxica
Estudos recentes mostram que a vitamina D atua em mais de 80 funções e ativa milhares de genes, tendo sido reclassificada como hormônio. Em equinos, porém, ainda não há estudos seguros que recomendem doses acima das tradicionais do INRA e do NRC.
A necessidade está ligada a animais sem acesso ao sol. No Brasil, 45 minutos diários de sol devem atender à demanda. Não há casos naturais descritos de raquitismo ou osteomalácia em equinos, pois exigiriam meses sem luz solar.
O excesso é o caso mais frequente de toxicose vitamínica, por rações, suplementos ou injeções frequentes. É cumulativo: pode ocorrer após 60 dias com dez vezes a dose recomendada, e o efeito residual da forma injetável dura de 6 a 18 semanas. Os sinais incluem calcificação de tecidos moles (coração, vasos, rins, estômago), queda de desempenho, intolerância ao exercício, sensibilidade em tendões e ligamentos e perda de peso.
Vitamina E e selênio
A vitamina E é o principal antioxidante muscular e das gorduras de reserva, protegendo membranas, mantendo a integridade muscular, atuando na imunidade — inclusive na resposta vacinal — e na reprodução. Sua ação está ligada ao selênio. Silagem, feno exposto ao sol, forragens velhas e farelos sem óleo têm pouca vitamina E; grãos oleaginosos são ricos nela. A necessidade aumenta com o exercício e com a gordura da dieta.
Deaton et al. (2002) e Marlin et al. (2002), este com cavalos de enduro em provas de 140 km, não observaram benefícios de antioxidantes extras em animais saudáveis com dieta equilibrada. Souza Corrêa et al. (2012) também não viram efeito da vitamina E e selênio injetáveis sobre lesões musculares. Já De Moffarts et al. (2005) observaram benefícios em cavalos de corrida em início de treinamento — cuja dieta, à base de aveia e alfafa, costuma ser pouco diversa. Recomenda-se não ultrapassar 20 vezes a necessidade.
Vitamina K e vitamina C
A vitamina K é cofator da coagulação e da mineralização óssea. A flora intestinal sintetiza o necessário; a suplementação só se justifica em hemorragias intensas, disbiose grave, animais idosos, intoxicação por dicumarínicos (raticidas, varfarina), antibioticoterapia prolongada ou forragem mofada. A forma sintética K3 pode intoxicar.
A vitamina C é sintetizada no fígado a partir da glicose; em condições normais, o cavalo produz toda a quantidade necessária. É antioxidante, participa da formação do colágeno e da imunidade. Situações como idade avançada, estresse, frio intenso ou competição intensa são citadas para suplementação, mas os benefícios não estão comprovados: a via oral pouco altera os níveis no sangue (Löscher et al., 1984) e doses diárias elevam a concentração plasmática sem benefício relatado (Snow et al., 1987).
Complexo B e biotina
As vitaminas do complexo B (tiamina, riboflavina, ácido pantotênico, niacina, piridoxina, ácido fólico, cobalamina, colina e biotina) participam do metabolismo energético e da síntese de gorduras, carboidratos e proteínas. São produzidas pela flora digestiva, sobretudo no ceco e no cólon, e em geral não se acumulam. A suplementação pode interessar em estresse intenso, dieta rica em grãos ou óleos, antibioticoterapia prolongada, potros desmamados precocemente, idosos e cavalos confinados com dieta restrita.
Não há evidências de que tiamina extra combata a fadiga. A B12 depende de cobalto para ser sintetizada pela flora. A colina, em excesso de apenas três vezes a dose, pode causar anemia e menor crescimento.
A biotina atua com aminoácidos sulfurados, zinco e cobre no crescimento dos cascos. Em patologias do casco, a suplementação deve ser de no mínimo 15 a 20 mg/dia, por 5 a 7 meses — há relatos de até 3 anos —, e só pode ser interrompida após o crescimento completo do casco.
Considerações finais: cuidados e quando suplementar
Animais bem manejados, saudáveis e com alimentação equilibrada não necessitam de aporte vitamínico extra. Já cavalos confinados, sob estresse intenso que favorece a disbiose, com dieta rica em amido, proteína e óleo em excesso, devem ter a suplementação do complexo vitamínico considerada — com base nas reais necessidades (INRA e NRC), em todos os alimentos oferecidos e no enriquecimento já presente nos concentrados.
- Acesso a piquete e sol ao menos duas horas por dia.
- Evitar estresses desnecessários que comprometam a saúde física e mental.
- Manter rações e suplementos em embalagens fechadas, longe da luz.
- Oferecer volumoso fresco, preferencialmente pasto; capim picado deve ser cortado e oferecido no mesmo dia.
- Evitar tudo que leve à disbiose, que compromete a produção de complexo B e vitamina K.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
