O que são as vibrissas
Segundo o dicionário Aurélio, vibrissas são "pelos rijos que crescem ao redor das narinas, ou em outras partes da face de muitos mamíferos, e que não são apenas sensitivos, mas costumam ter função tátil".
Nos equinos, as vibrissas fazem parte do órgão sensorial do tato, estando localizadas especialmente ao redor dos olhos e das narinas. É através delas que o cavalo percebe a aproximação de objetos nessas áreas — que são áreas cegas para ele.
A decisão da FEI e das federações
A Federação Equestre Internacional (FEI), em assembleia no dia 23 de novembro de 2020, proibiu o corte, apara ou qualquer forma de alteração das vibrissas em qualquer competição internacional chancelada pela entidade, sob pena de exclusão do conjunto do evento a partir de julho de 2021, salvo recomendações clínicas de médico-veterinário.
A recomendação é proibir a entrada dos animais em pista "se os pelos sensoriais do cavalo tiverem sido cortados e/ou raspados ou de qualquer outra forma removidos, a menos que os pelos sensoriais individuais tenham sido removidos por um veterinário para evitar dor ou desconforto para o cavalo".
A FEI se alinha, assim, a diversas federações equestres de países como Alemanha — a primeira, desde 1972 —, Bélgica, Suécia, Suíça e França. Segundo Roly Owers, CEO da World Horse Welfare (Reino Unido), "bigodes, ou vibrissas, desempenham um papel sensorial importante na proteção do focinho e olhos do cavalo e, portanto, removê-los porque parece limpo é completamente injustificável".
Não é radicalismo: é defesa do cavalo
Tenho ouvido muito por aí que essas são medidas oriundas de movimentos radicais que em breve irão proibir até mesmo os esportes equestres. Ledo engano. A proibição de esportes equestres ocorrerá se nenhuma atitude tomarmos em defesa do cavalo. O esporte pode muito bem ser adequadamente conduzido, sem lesões nem contrariedades comportamentais aos animais, desde que se busque entender e levar em consideração quais são suas reais necessidades.
Muitos alegam que embocaduras pesadas, esporas e chicotes mal utilizados, selas mal posicionadas e equitação mal feita são mais maléficas aos animais. Estão cobertos de razão ao alegar que essas questões são extremamente prejudiciais. Mas uma coisa não exclui a outra: o fato de existir uma situação péssima não quer dizer que uma ruim deva permanecer. Por algum lado devemos começar a mudar.
Se tomarmos, cada vez mais, uma postura em defesa do cavalo em situações que sabemos ser prejudiciais — ou que, se não sabemos, devemos procurar saber se o são —, tiramos os argumentos daqueles radicais que de nada entendem e contra tudo são. Antecipar problemas, procurando não apenas a cura, mas evitar sintomas, deve ser o mote de todo e qualquer médico-veterinário de qualidade. Prevenir, para melhor cuidar.
A área cega abaixo do focinho
Segundo Welker (1971, apud Goloubeff e Abreu, 2019), "a disposição lateral dos olhos produz uma área cega abaixo das narinas e boca, que se projeta dois metros para frente, tornando-os dependentes do senso de tato fornecido pelas vibrissas. Cada vibrissa possui rico fornecimento de nervos aferentes e a sua própria pequena área no córtex sensorial, indicando serem elas de extrema importância dentro da economia orgânica".
Ou seja: o que para o olho humano parece apenas um detalhe estético é, para o cavalo, o principal instrumento de leitura de uma região que ele simplesmente não vê.
Vibrissas e percepção auditiva
Além da parte sensorial tátil amplamente conhecida, diversos estudos citados por McDonald (2018) sugerem uma forte correlação das vibrissas com a melhoria da percepção auditiva. Nesses estudos, observou-se melhor percepção sonora quando precedida por percepção vibrissal em diversas frequências: o estímulo nas vibrissas permitiu melhor percepção em tons mais baixos e, em tons médios e elevados, o sistema tátil é utilizado em sincronia com o sistema auditivo.
Gillmeister e Eimer (2007) observaram que havia melhor associação comportamental entre toque e percepção de um som alto do que sem estímulo de toque. O mecanismo proposto é a integração multissensorial mediada por neurônios áudio-táteis em regiões do córtex no sistema auditivo. Ou seja, as vibrissas ampliam a percepção auditiva dos indivíduos, melhorando sua percepção do ambiente.
Em estudo com ratos, Parra (1999) observou que animais com as vibrissas removidas tinham menos percepção espacial em labirinto, utilizando mais intensamente os braços para perceber o ambiente, especialmente em situações de pouca claridade — denotando efeito ansiolítico causado pela remoção das vibrissas. Esses estudos englobam diversas espécies, com resultados semelhantes; as vibrissas podem ser encontradas em praticamente todos os mamíferos, exceto nos humanos.
Por que isso importa no dia a dia do haras
Como todos os animais, os equinos se utilizam de todos os seus sentidos para melhor percepção e controle do ambiente que os cerca. As vibrissas, sendo parte do sistema somatossensorial — que envolve o sistema tátil e, provavelmente, o auditivo —, devem estar intactas para que não haja perda da noção espacial nem menor controle do ambiente. Percepção intensa do ambiente, para uma presa, é condição fundamental para sua sobrevivência e alívio do estresse.
Para profissionais do meio equestre que vivem do cavalo, que convivem com esses animais porque se dizem apaixonados pela espécie, a busca e defesa do que é melhor para eles, do ponto de vista deles, deve ser a essência de nosso trabalho. E isso pode começar pelas "pequenas" coisas, como a preservação integral de todos os seus sentidos — como as vibrissas.
Antecipar problemas, procurando não apenas a cura, mas evitar sintomas, deve ser o mote de todo e qualquer médico-veterinário de qualidade. Prevenir, para melhor cuidar.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
