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Saúde & Prevenção · 11 min de leitura

Cavalos sentem? Emoções, empatia e a relação homem & cavalo

Da domesticação à Declaração de Cambridge sobre a Consciência: o que a ciência diz sobre os sentimentos dos cavalos e por que liderar é diferente de mandar.

por André G. Cintra · MV, Prof. Esp.

Quatro preceitos imutáveis

Do Hyracotherium, há 55 milhões de anos, ao cavalo atual, muito mudou, mas quatro aspectos permaneceram: presa (a fuga é a primeira atitude; o ataque só acontece se não houver fuga), gregário (precisa de companhia, e o contato físico o acalma), liberdade e alimentação baseada em fibras longas.

De companheiro a obstáculo — e de volta

O cavalo foi domesticado há cerca de seis mil anos. Primeiro foi alimento; depois, meio de transporte, numa parceria que permitiu ao homem vencer velocidade e distância.

No início do século XX, com o automóvel, passou a ser visto como obstáculo, e populações inteiras quase foram exterminadas. A relação foi retomada com força a partir do fim dos anos 1980, quando o homem urbano buscou voltar às origens.

A domesticação deu abrigo, alimento e proteção, mas limitou liberdade e reprodução. E a busca por mais contato trouxe mais benefícios ao homem que ao cavalo, que passou a viver confinado, isolado e com restrição alimentar.

Cavalos têm sentimentos

Darwin já descrevia seis sentimentos básicos nos animais: surpresa, felicidade, tristeza, aversão, raiva e medo. Jaak Panksepp nomeou sete sistemas: busca, raiva, medo, tristeza/pânico, brincar, cuidado e luxúria. Pesquisadores europeus já mostraram que cavalos sentem depressão.

Ouso dizer que os animais possuem todos os sentimentos dos humanos — mas sentidos à maneira de cada espécie. O cavalo sente dor, raiva, amor, ciúme e medo como um cavalo, moldado pela sua evolução. Isso não é antropomorfismo, e sim conceito funcional, como pernas ou olhos (Lorenz).

Empatia: o sexto sentido

O cavalo se comunica pela visão, audição, olfato, tato, paladar e empatia. Empatia vem do grego "empatheia": estar dentro do sentimento alheio, sentir o que o outro sente. Segundo Pouydebat (2017), é a capacidade de ser afetado pelo estado emocional de alguém.

O cavalo percebe nossas intenções e nosso estado emocional antes de o tocarmos. Por isso, controlar a respiração e as emoções facilita a aproximação.

Estudos do HeartMath Institute (2015) descrevem um campo eletromagnético do coração que se irradia por cerca de 3 metros no ser humano e até 15 metros no cavalo. Esses estudos também mostram que emoções estressantes afetam o sistema nervoso autônomo e os sistemas hormonal e imunológico — emoções positivas favorecem o tratamento e a cura.

A ciência da consciência animal

O neurocientista Philip Low mapeou áreas ligadas à consciência humana e observou que as mesmas áreas se ativam nos animais sob os mesmos estímulos. Em 2012, com Panksepp, Reiss, Edelman, van Swinderen e Koch, elaborou a Declaração de Cambridge sobre a Consciência.

O peso das evidências indica que os humanos não são únicos em possuir os substratos neurológicos que geram consciência. Animais não humanos, incluindo todos os mamíferos e aves, também possuem esses substratos.

Declaração de Cambridge sobre a Consciência (2012)

Líder não é chefe

Toda sociedade animal precisa de hierarquia. Estudos recentes apontam uma liderança compartilhada, em que o indivíduo mais capaz para obter determinado recurso lidera naquele momento. O cavalo busca um líder confiável, que saiba onde estão os recursos e permita convivência pacífica.

O líder convida e estimula, com base em emoções positivas; o chefe se impõe pelo medo. Ser líder do cavalo é buscar a relação homem & cavalo, e não homem x cavalo.

Na prática

Na minha experiência, oferecendo de 400 g a 1,5 kg de ração por dia conforme a categoria, tenho benefícios econômicos e praticamente excluo doenças por excesso, como cólicas. Também desmamei potros entre 9 e 11 meses sem prejuízo físico e com benefícios psicológicos, iniciando o contato a partir da 5ª hora de vida, respeitando a interação do potro com a mãe.

Essa relação permite, mesmo com criação em liberdade, me aproximar dos animais a qualquer momento, sem estresse para ninguém. Aprender o "cavalês" é menos complexo do que parece: o cavalo não é complicado; o homem é quem complica.

Autoria e créditos

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.

Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).

Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra

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