O que os números mostram
Estudos realizados nos Estados Unidos demonstram que a maior causa de mortalidade por enfermidade em cavalos é a síndrome cólica. Até 28% dos casos de enfermidade em fazendas norte-americanas são de cólicas, sendo que a mortalidade por essa enfermidade perde apenas para a velhice (Tinker et al., 1997). Estudos também observaram a cólica como a maior causa de mortalidade na França e na Suécia (Leblond et al., 2000; Egenvall et al., 2008).
No Brasil, Pierezan et al. (2009), em estudo retrospectivo da UFSM (RS), relataram que 23% das mortes do hospital veterinário foram em razão de cólicas, sendo esta a maior causa. Em estudo de 2011 no Reino Unido, Scantlebury et al. observaram recorrência em torno de 50% de cólicas em equinos que já tiveram quadros anteriores. Bland (2016) cita que 10% dos cavalos nos Estados Unidos sofrerão de cólica em algum momento da vida, com taxa de mortalidade de 11%.
Segundo a Universidade de Liverpool, cólica é um termo usado para descrever um sintoma de dor abdominal, geralmente causado por problemas no trato gastrointestinal. Existem mais de 70 tipos diferentes de problemas intestinais que causam sintomas de cólica, que variam de leve a grave, com risco de vida.
Cólica é comum — mas nunca normal
Por que ainda ocorrem tantos quadros de cólica e cavalos morrem por causa disso? Em primeiro lugar porque, infelizmente, o ser humano no mundo todo acredita que cólica em cavalo é normal. Mas estado de saúde é normal; doença é um mal que afeta um ser vivo e que deve ser evitado a todo custo — especialmente por aqueles que cuidam e devem zelar pela saúde dos animais, desde o tratador, passando pelo proprietário, chegando aos colegas médicos-veterinários.
Em estudo sobre como as pessoas compreendem uma doença, Conrad e Barker (2010) citam como premissa principal que algumas doenças estão embutidas no significado cultural. E, para muitos do meio equestre, cólica é normal. Scantlebury et al. (2014) demonstram que é importante que proprietários e tratadores estejam cientes dos sinais de cólica, pois desempenham papel crítico no início da intervenção veterinária — e ainda há pouca informação sobre como eles avaliam e gerenciam os episódios.
Mas por que matamos cavalos? Porque, no mínimo, 95% dos quadros de cólicas ocorrem por erros de manejo. E quem maneja os cavalos no dia a dia somos nós. Consequentemente, basta acertar e corrigir o manejo na rotina diária que praticamente eliminamos os riscos de cólicas.
Os quatro preceitos que o cavalo não abandonou
A síndrome cólica ocorre por conta de características peculiares que os cavalos adquiriram ao longo do processo evolutivo — características que lhe permitiram sobreviver de forma eficiente nos últimos 60 milhões de anos. Quatro delas, às quais denomino preceitos, permanecem imutáveis em todo esse processo.
Os três primeiros preceitos — presa, liberdade e gregário —, quando não satisfeitos, levam o animal a um estado de estresse intenso, que pode causar desequilíbrio na microbiota digestiva, comprometendo o aproveitamento dos alimentos e favorecendo os quadros de cólica. A flora benéfica, quando plenamente atuante, inibe a proliferação de microrganismos patogênicos; quando ela é afetada, esses patógenos se proliferam livremente levando ao estado de doença.
O quarto preceito, volumoso de fibra longa, é mais do que essencial, pois é o próprio alimento da microbiota. E quando esta está equilibrada, há produção adequada de serotonina, hormônio também responsável pelos movimentos peristálticos, o que auxilia na saúde intestinal e reduz a possibilidade de cólicas.
- Presa: toda a atitude do cavalo é de um animal de fuga, estressando-se em qualquer situação que possa colocá-lo em perigo — inclusive um tratador ruim.
- Gregário: vive em bandos, e o isolamento torna o animal irritado e estressado.
- Liberdade: evoluiu caminhando de 2 a 11 km por dia, dependendo da qualidade da pastagem.
- Herbívoro: o aparelho digestório evoluiu em simbiose com microrganismos capazes de digerir vegetais de fibra longa, como capim não triturado.
Cavalos não nasceram para ter cólica
Já ouvi essa afirmação, e com dor no coração jamais podemos aceitar que uma evolução anátomo-fisiológica que tornou o equino o que ele é hoje, permitindo que sobrevivesse por milhares de anos da forma mais eficiente, seja considerada um "defeito" do cavalo — simplesmente porque o ser humano não consegue se adaptar a essas particularidades e deseja que o cavalo evolua mais uma vez para atender às suas necessidades.
Quando fiz a graduação, lembro-me na aula de cólica que o professor abordava o que chamou de causas predisponentes. O problema é o significado da palavra: predisposição é tendência natural, inclinação, vocação. Ou seja, o cavalo teria vocação para ter cólicas. Mas se a forma mais eficiente de sobreviver na natureza significasse tendência a ficar doente, a seleção natural teria eliminado a espécie. Não é da natureza do cavalo ficar doente.
Boca: a digestão começa na mastigação
A saúde dos dentes do cavalo é fundamental para garantir uma digestão eficaz e a passagem do alimento por todo o aparelho digestório sem problemas. O dente do cavalo é do tipo hipsodonte, com grande coroa, e apresenta eliodontia: eclode por toda a vida ao ritmo de 2 a 3 mm ao ano, dependendo da alimentação.
Quando o animal tem alimentação baseada em capim não triturado, especialmente pela pastagem, ocorre o desgaste natural e desejável dos dentes. Quando o submetemos a uma alimentação baseada em feno, capim triturado e grãos de cereais, não ocorre desgaste correto e equilibrado, levando a problemas graves na dentição que comprometem a mastigação, a salivação e, consequentemente, todo o processo digestório.
Um cavalo em pastagem realiza 6.000 movimentos mastigatórios por hora, totalizando de 80.000 a 100.000 movimentos diários, alimentando-se de 13 a 16 horas. Com feno à vontade, os movimentos caem para 3.600 ciclos por hora, no máximo 32.000 ciclos por dia — menos desgaste e menos produção de saliva. Alimentos mal triturados e pouco umedecidos favorecem quadros de síndrome cólica.
Estômago: pequeno, e sem volta
A ligação da boca com o estômago é feita pelo esôfago; no final desse tubo há um esfíncter denominado cárdia, funcional na espécie equina, que impede que o alimento retorne à boca. Isto é, o cavalo não pode vomitar. Todo alimento que segue para o estômago só tem um caminho: as porções finais.
O estômago do cavalo é uma porção de pequena capacidade, apenas 9 a 12 litros, que comporta no máximo 0,4 a 0,5 kg de ração para cada 100 kg de peso por refeição — para um cavalo de 400 kg, no máximo 2,0 kg por refeição, sendo ideal no máximo 1,5 kg. Ofertar mais do que isso favorece os quadros de cólica.
O tempo de digestão no estômago é de 1 a 5 horas. A digestão do concentrado é altamente exigente em disponibilidade energética e, para potencializar o processo, deve-se aguardar de 45 a 60 minutos por kg de ração para administrar o volumoso e mesmo para trabalhar o animal, pois o trabalho muscular compromete a eficácia da digestão por priorizar o uso de energia.
Intestino delgado e o problema do amido
O intestino delgado é uma porção muito longa, de 18 a 22 metros, um tubo fino e enovelado onde ocorre principalmente a digestão enzimática. Como é longo e estreito, a passagem do alimento ocorre de forma tranquila se ele foi bem triturado, está umedecido pela salivação e não é composto de fibras grosseiras — capim velho, feno fibroso. Alimentos mal triturados e com fibras de má qualidade podem obstruir essa porção, levando a cólicas por impactação e até favorecendo torção intestinal.
É aqui que ocorre a liberação da amilase pancreática, responsável pela digestão do amido. Evolutivamente, o equino tinha alimentação baseada em gramíneas frescas, com teores de amido que dificilmente ultrapassavam 2 a 4%, ingeridas a uma taxa de 2 a 3 kg por hora. Por isso há grande ineficiência no processo digestório do amido quando ofertado em grandes porções de ração.
Ainda se discute qual o valor seguro de ingestão de amido. Potter et al., nos anos 90, falavam em 4 g de amido por kg de peso vivo por refeição. O NRC (2007) recomenda no máximo 2 g/kg PV/refeição. Martin-Rosset (2010) recomenda o máximo de 1,1 g/kg PV/refeição. Em trabalho de 2020, Suagee-Bedore et al. observaram que mesmo doses baixas, de 1,14 g/kg, podem induzir inflamação pós-prandial. Quanto mais se aprofundam as pesquisas, mais os valores do amido tendem a se aproximar do natural do cavalo.
Empresas do mundo todo buscam fórmulas com menos amido. Mas será isso realmente necessário, ou podemos fracionar a ração em muitas refeições diárias fornecendo menos amido por refeição? Tenho tido excelentes resultados ofertando 600 a 800 g de ração por refeição em 4 ou 5 refeições, com ração de nível de qualidade elevado. Ao fracionar, o intervalo de espera para o volumoso e o trabalho se reduz para 30 a 40 minutos no total, otimizando o processo digestório e a rotina — o que ainda favorece a prevenção de cólicas.
Uma terceira via para amenizar os malefícios do excesso de amido, que leva à disbiose e potencializa as cólicas, é a oferta de simbióticos diariamente. Existe ainda a opção observada por Suagee-Bedore et al. (2020): ofertar um quilo de feno uma hora antes da refeição com teor moderado de amido e açúcar reduziu os efeitos negativos da fermentação rápida no trato digestivo.
Intestino grosso: a câmara de fermentação
Composto por ceco, cólon e reto, o intestino grosso é a câmara de fermentação do cavalo, onde ocorre a digestão essencialmente microbiana, lenta e gradual, e o alimento pode ficar de 24 a 48 horas sendo digerido. Essa porção é caracterizada por grandes compartimentos — ceco e cólon, com capacidade de até 70 e 130 litros — e por flexuras, espessamentos da parede intestinal em porções mais estreitas que impedem a passagem rápida do alimento.
Essas flexuras, por outro lado, predispõem o animal a quadros de cólica se o alimento for de má qualidade, com fibras de difícil digestão. E como aqui a digestão depende da flora intestinal, situações que levem à mortalidade dessa flora — a disbiose, por antibioticoterapia prolongada, mudanças bruscas de alimento e estresse — podem comprometer o processo digestório levando à síndrome cólica.
Os erros que desencadeiam o quadro
As cólicas gástricas podem ocorrer por erros no fornecimento de água ou de ração concentrada. O cavalo é extremamente sensível às alterações no padrão alimentar, inclusive na água: água muito fria pode causar vasoconstrição dos vasos do estômago levando a cólica. O mesmo pode ocorrer se o animal tomar água muito rapidamente, principalmente após esforço físico, ou se houver inconstância no fornecimento ou restrição de acesso.
Cavalos que comem a ração muito rapidamente trituram pouco o alimento e produzem menos saliva. O fracionamento da ração em pequenas porções favorece a ingestão mais lenta, e se fracionamos também o volumoso teremos mais tempo de mastigação, mais salivação, melhor processo digestório, melhor ocupação, menos estresse e menos cólicas.
As cólicas intestinais podem ser causadas pela ingestão de alimentos de baixa digestibilidade, por excesso de lignina presente em volumoso de má qualidade, velho, passado ou seco demais. Alfafa fresca em fornecimento à vontade pode induzir formação de gases. Situações de estresse ou dor intensa podem provocar estase intestinal e morte da microflora digestiva. Tinker et al. (1997) e Cohen et al. (1999) reforçam o conceito de risco dietético: qualquer mudança de dieta sem adaptação mínima de duas semanas favorece a disbiose — e Grimm et al. (2016) observaram alterações na composição bacteriana do intestino posterior mesmo em mudança abrupta entre dois fenos bioquimicamente semelhantes.
A ingestão de areia, terra, madeira, borracha e produtos não naturais para a espécie constitui um distúrbio comportamental denominado pica, e pode trazer sérios prejuízos. A ingestão de areia e terra pode estar associada a verminose, desmineralização, acesso a água barrenta ou animais que comem ração diretamente no chão com piso de areia.
10 medidas práticas de prevenção
Uma boa alimentação equilibrada deve partir de fórmulas estáveis, que garantem a qualidade do produto final, matérias-primas nobres e procedimentos rigorosos de fabricação industrial, que evitam problemas de toxicidade. Devemos sempre avaliar as necessidades do animal com auxílio de técnicos especializados e do veterinário, em função da raça, idade, peso, esforço, tipo de forrageira e objetivo fixado — que no mínimo deve ser a saúde e a integridade do animal.
- Respeitar ao máximo os quatro preceitos do cavalo: presa, liberdade, gregário e alimentação baseada em forrageira de qualidade.
- Manter o animal em bom estado de saúde, vermifugando quando necessário, com controle por exame de fezes.
- Cuidar da dentição do animal — é fundamental para uma boa saúde digestiva.
- Respeitar exigências nutricionais diferentes para cada categoria: animais diferentes, necessidades diferentes.
- Menores quantidades de alimento têm aproveitamento mais eficiente: quanto mais se distribuir o alimento ao longo do dia, melhor.
- Para animais estabulados, a última refeição do dia deve ser de volumoso, garantindo ocupação durante a noite.
- As mudanças de ração devem ser graduais: 1/3 da nova com 2/3 da antiga por 5 a 7 dias, metade e metade por 5 a 7 dias, 2/3 da nova com 1/3 da antiga por mais 5 a 7 dias.
- Ajustar o nível energético da alimentação conforme a necessidade real de trabalho.
- Não dar importância excessiva à quantidade de concentrado, mas sim à sua qualidade.
- Adotar o princípio: mínimo necessário, não máximo obrigatório.
Basta acertar e corrigir o manejo na rotina diária dos cavalos que praticamente eliminamos os riscos de cólicas.
Autoria e créditos
André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)
Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.
Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).
Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra
