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Saúde & Prevenção · 11 min de leitura

Enriquecimento ambiental para cavalos: o que é e como aplicar na rotina

Não basta colocar uma bola na baia. Enriquecer o ambiente é oferecer escolha, companhia, movimento e sensações próximas da vida natural.

por André G. Cintra · MV, Prof. Esp.

Bem-estar e necessidades do cavalo

Bem-estar é o estado do indivíduo em relação às suas tentativas de se adaptar ao ambiente (Broom). Necessidade é um requisito biológico fundamental para obter um recurso ou responder a um estímulo — algo inerente à espécie e inscrito em seu comportamento. Se não permitimos ao animal atendê-la, ele entra em sofrimento mental, muitas vezes externalizado por estereotipias.

A prevalência de estereotipias pode chegar a 60% dos animais em condições precárias — no dia a dia ou em eventos, com transporte, competição, instalações ruins, falta de liberdade ou de companhia. Diversos autores citam a liberação de endorfinas como forma de o animal "fugir" das pressões negativas do ambiente. A ausência de um ou mais dos 4 pilares do comportamento equino favorece esse quadro.

Panksepp, criador do termo neurociência afetiva, afirma que, ao tirar o sistema de Busca/Exploração da vida de um animal, sua vida mental fica tão comprometida que ele não pode viver feliz. Esse sistema, movido pela dopamina, estimula o forrageamento, a curiosidade e a expectativa — tudo o que falta a um cavalo confinado quase 24 horas por dia, saindo apenas para trabalhar.

O que é enriquecimento ambiental

Um dos principais fatores para as estereotipias é a ausência de direito de escolha, levando à insatisfação e à frustração. O enriquecimento ambiental (EA) busca dar ao animal escolha, controle sobre o ambiente e possibilidade de enfrentamento. A WSPA o define como a alteração do ambiente de animais cativos para aumentar a oportunidade de expressar o comportamento da espécie e elevar o bem-estar.

Estudos com suínos mostram que o ambiente afeta até a prole: fêmeas com estereotipias geraram filhotes com pior controle do medo, enquanto ambientes enriquecidos resultaram em leitões mais aptos, mais sobreviventes e menos ansiosos.

O EA deve ser dinâmico e não deve impedir o animal de realizar o movimento estereotipado, mas estimular comportamentos o mais naturais possível. O objetivo não é apenas tirar o animal do estresse para um nível aceitável, e sim elevar o bem-estar ao máximo. Cada indivíduo responde de forma diferente, por isso é preciso observar os efeitos em cada cavalo.

Uma bola na baia não é enriquecimento

O maior segredo do sucesso — ou do fracasso — de muitas práticas é a falta de diversidade, alternância e mudança constante. Simplesmente colocar uma bola na baia não é EA; quantos cavalos brincam com bolas? A curiosidade inicial passa, e o estímulo deixa de despertar comportamentos naturais.

Bolas vazadas ou redes com feno (slow feeders) só funcionam como EA se usadas algumas vezes por semana, e não em todas as refeições — do contrário, perdem o dinamismo. Brincadeiras são comuns em potros, mas em adultos domésticos parecem estar ligadas a estresse oxidativo, bem-estar reduzido e agressividade, não sendo algo a estimular intensamente.

O EA também precisa ser seguro: em um caso relatado com macacos, cordas de sisal ingeridas causaram úlceras, perfurações e peritonite. Além disso, aumentar a dificuldade de acesso ao alimento eleva a atividade, mas não garante, por si só, mais bem-estar.

Trabalhar com sensações

Em última instância, o EA trabalha com sensações: oferecer ao indivíduo impressões semelhantes às que teria com acesso pleno às condições naturais. Não basta soltar o cavalo em um piquete quadrado — ao galopar, ele chega a um fim. O ideal é um piquete redondo, sem cantos, para galopar indefinidamente, e localizado com vista para um campo aberto, dando sensação de amplitude.

Da mesma forma, o volumoso não deve ficar à vontade, para evitar a obesidade, mas ser oferecido em pequenas porções a cada 2 horas, para que o cavalo sempre tenha algo a comer ao longo do dia.

Os cinco tipos de enriquecimento aplicados ao cavalo

Bloomsmith et al. classificam o EA em social, ocupacional (hoje chamado cognitivo), físico, sensorial e nutricional. Pensando de forma holística, eles nunca devem ser trabalhados isoladamente.

  • Físico: para o cavalo, o essencial é espaço para caminhar e galopar, sensação de liberdade e contato visual — e até físico — com outros equinos, mesmo na baia.
  • Nutricional: variar a forma, os itens e a frequência da oferta; espalhar o alimento para estimular o forrageamento; oferecer volumosos diferentes ao mesmo tempo, com direito de escolha.
  • Sensorial: estimular os sentidos com cheiros, sons como uma queda d'água ou música, conhecendo as habilidades sensoriais da espécie.
  • Social: janelas entre baias para criar vínculos; soltar juntos ou em piquetes contíguos; espaço adequado e mais itens que indivíduos, para evitar disputas.
  • Cognitivo: desafios mentais e treinamento por condicionamento operante com foco em elevar o bem-estar e a interação positiva com humanos.

Por que a companhia é tão importante

Equinos são gregários e sua sobrevivência depende de outros da mesma espécie. Uma presa só se sente tranquila — e só tem um sono reparador — quando outro indivíduo do seu rebanho está de vigília. Janelas de comunicação entre baias de garanhões permitem interação e sensação de companhia constante, deixando os animais mais calmos e facilitando o manejo. Em um experimento conduzido na Áustria, dois garanhões em baias com interação intensa aprenderam a conviver até com grooming.

Oferecer diversidade de volumoso ao mesmo tempo reduz o aparecimento e a prevalência de estereotipias em animais estabulados (Thorne et al., 2005) e ainda diversifica a microbiota, somando um benefício à saúde física.

Como avaliar se o enriquecimento funciona

Não basta oferecer o EA e achar que se fez o possível: é fundamental avaliar os resultados com um etograma — o rol de comportamentos esperados em cada situação. Quanto mais comportamentos naturais, maior a chance de bons níveis de bem-estar; quanto mais comportamentos anormais, maior o estresse. Bons sinais incluem mais exploração do ambiente e interação positiva, e menos comportamentos agonísticos e vocalização intensa.

Sem uma avaliação do animal antes, durante e depois, não é possível garantir que o EA seja efetivo. Um bom EA deve ser interessante, estimulante e procurado pelo animal.

  • O recinto oferece conforto térmico e acústico e estruturas para os comportamentos necessários?
  • A alimentação e a forma de oferecê-la estão adequadas?
  • A natureza social do animal está suprida?
  • Há estímulos sensoriais, como ruídos, luminosidade e odores?
  • Há desafios simples que mantenham o animal ocupado em comportamentos naturais?

Existe o ideal e o possível. Quando o ideal não é possível, o possível deve ser feito para se adequar o manejo ao cavalo, e não o cavalo ao manejo.

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Autoria e créditos

André G. Cintra (MV, Prof. Esp.)

Médico-Veterinário, Professor e Especialista em Nutrição, Comportamento e Bem-Estar Equino.

Autor das obras Alimentação Equina: Nutrição, Saúde e Bem-estar, O Cavalo: Características, Manejo e Alimentação e Manual de Gerenciamento Equestre: Textos, Tabelas e Planilhas (coautor).

Contato: agcintra@gmail.com · Instagram @andregcintra · YouTube André G. Cintra

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